26.12.17

Sheila

A ideia era chamar-lhe Sheila: a primeira sílaba pode ser lida Sei ou Ela, consoante. A segunda é sempre Lá. Sei Lá, Ela Lá. Ela lá sabe? Não sabe ela nem sei eu nem sabemos nós. Sheila, mulher de trinta anos e outros tantos amores. Magra, alta, cabelos ruivos encaracolados, olhos verdes de matar vocações, dizia um desses amores, mais breve ainda do que os outros. Solteira, professora de literatura escandinava numa faculdade inglesa. Está em Portugal de férias, com a intenção de se encher de sol, areia, vinho verde e um ou outro homem "desses que agarram touros".
-Quem se atira a touros despreza vacas -, respondi-lhe em português. Ela não percebeu.

Ainda bem. Estávamos numa praia da Costa Vicentina. A água não estava tão fria como de costume, o aquecimento global tem as suas vantagens. Fazíamos amor dentro de água, longe da costa mas provavelmente à vista dos binóculos dos Nadadores-Salvadores. Pouco me importava: veriam quando muito duas cabeças perto uma da outra, dois braços agarrados a um colchão, dois corpos que se possuíam mutuamente, um dos quais se afogava devagar e não era no mar.

Sheila tinha o amor vivo e expressivo das ruivas; eu a vergonha do macho latino que se vê enleado na liberdade alheia. Daí o vaca, claro: era despeito-próprio.

Antes de irmos para a pensão onde toda a gente nos olhava de soslaio parávamos no bar da praia e bebíamos uma garrafa de vinho verde.

Ao fim de uma semana Sheila disse-me: - Não consegui o que queria.
- O que é que te falta?
- Pensei que ia ter vários homens e afinal um chega-me. Estou a ficar apaixonada por ti. Espero que passe depressa.

O bar da praia fica no lado Norte, em cima de uma pequena falésia. É de madeira escura, tratada só com óleo. Sheila fala baixo, numa voz arranhada pelo tabaco, pelo whisky e pela fúria. Mais tarde, muito mais tarde referir-me-ia a ela como "As Fúrias" porque eram muitas as que continha de manhã à noite. Vamos jantar a uma tasca na vila e em seguida ao bar du Sud, assim mesmo em francês. Jean, o dono é um suíço versado em whiskies, cocktails e psicologia nocturna. Abafava a erudição numa vasta careca, pequena estatura e uma reserva educada, quase caricatural. Chamava-me Senhor e My Lady a Sheila. Fazia os melhores Alexander da galáxia. "Isto devia ser pago pela Segurança Social", dizia-me My Lady. Fazia-lhe que sim com um acenar de cabeça e tratava de os beber o mais depressa possível. Também eu queria que aquilo me passasse depressa.