16.1.18

Como se o amor não chegasse

Como se nada disto fosse suficiente: dar a volta à Lua sem sair do mundo sub-lunar; abomináveis vergonhas intercaladas com brevíssimas vitórias; dores de cabeça até à ponta das unhas dos pés; labirínticos sentimentos, dédalos de emoções imbricadas umas nas outras como o casario nas aldeias gregas, janelas para o futuro que se abrem no passado pensando que estão no presente, ilusões várias de todas as cores do alfabeto, um braço que começa em Lisboa e acaba em Coimbra, comboios que tocam Glass no leitor de CD (ou Bartok ou Taylor ou como agora Ravel, mas este não é um comboio, é um eléctrico urbano que se enganou de linha); o primeiro inverno em muitos anos; outro labirinto, indescritível e mais dédalos, ruas pelas quais me perdi voluntária ou involuntariamente em todas as partes do mundo, sozinho ou acompanhado, bêbedo ou sóbrio, de dia ou de noite (todos estes elementos são combináveis livremente); dias que parecem noites de tão bons e noites que parecem dias de tão más; o mar, sem mim tão longe e tão vazio, a chamar-me com grandes vagas como se eu fosse surdo, esta ideia de que algures há gente em ilhas, com rum e um céu azul do qual escorre calor como se as nuvens transpirassem.

Como se isto não fosse suficiente, como se nada disto chegasse para fazer uma vida, essa ruga no tempo para a qual não há cremes.

Enfim, há. Chama-se amor, mas é melhor não o chamar.