7.1.18

Francine (fragmento)

Caíam sabres do céu. Sabres de samurai, não se deve fazer a coisa por menos. Fui à padaria comprar pão e à mercearia manteiga. O pão estava quente porque era cedo. Encostei-o à barriga  por baixo da camisola para me aquecer e o manter quente. Tinha chegado manteiga fresca à mercearia: o monte estava liso, regular. Pedi meio quilo em vez dos duzentos e cinquenta gramas habituais. Quero ajudar o meu cardiologista a construir uma casa e sobretudo chatear a Francine. "Cada bocado de pão com manteiga que pões na boca é um tijolo na nova casa do médico", dizia-me. Eu não respondia. Para quê? Francine não me ouve. Era a minha namorada vai para duas glaciações, se excluirmos a glaciação que ela própria trazia para casa, levava para o escritório ou para onde quer que fosse.

Gostava muito dela até acordar: loira, de pele clara e mamas grandes quase não se via na cama. As mamas caíam-lhe para cada lado do torso e todos os dias me levantava com aqueles rios de carne a olhar para mim. Depois acordava e o martírio começava.
- Devíamos falar do nosso amor
- Não sei o que é o amor e não gosto de falar do que não conheço.

Ou:
- É desgostante ver-te comer tanta manteiga.
- Posso começar a usar banha de porco, se preferires.

Ou:
- Vais assim vestido?

Ou:
- Há quanto tempo não fazemos amor? Já não gostas das minhas mamas? Andas a comer outra mulher? - Os ciúmes faziam-na falar de rajada.

Morávamos no Aber W'rach, pequena povoação do norte da Bretanha, numa daquelas casas de granito cobertas de ardósia. A casa era dela. Eu tinha lá chegado de barco, encontrei-a num café e pouco tempo depois mudei-me. Queria deixar o mar, fazer outras coisas, mudar de vida.