11.1.18

Tudo?

Pouco mais disse, depois de morrer. Confortavelmente deitado num caixão que os vermes já tinham começado a roer - esse e o das pás dos coveiros durante parte do dia eram os únicos ruídos que o importunavam, porque gostava de ouvir as elegias fúnebres dos seus vizinhos - sentia uma certa inveja da alma, que imaginava deitada nas nuvens.

A alma estava realmente numa nuvem, mas escorregava o tempo todo e tinha frio. Devia ser um nimbus. Dos intermináveis diálogos de quando estava vivo pouco sobrava: nada tinham em comum, apercebia-se agora, não sabia se com alívio se com terror tardio: quer dizer que perdera aqueles anos todos a falar com a alma errada?

Uma vez na escola um professor tinha gozado com ele por causa do seu uso frequente (abuso, para o dito professor) da palavra alma.

Imagine-se porém um pôr-do-Sol à beira do rio. A água alaranjada parece esconder um segredo. Duas ou três embarcações, dessas que fazem passeios com turistas prometendo-lhes aventura e vida eternas disputavam a meia dúzia de gaivotas o privilégio de ouvir o segredo primeiro. O rio fecha-se em copas, nada diz, o Sol acha que está na hora, a alma agarra-se outra vez  a um canto da porcaria da nuvem - já não é um nimbus mas um cumulus, mais simpático, confortável e adequado ao tempo -.

"É tudo", disse em voz suficientemente alta para interromper as minhocas e fazer um dos vizinhos gritar-lhe "Cala-te".

É tudo.