26.1.18

Vida de Atanásio Beldade depois do incidente

Um touro pega-se pelos cornos e despreza quem dele foge. Atanásio Beldade, assim chamado pelas garotas da vila onde crescera e vivia aprendeu-o à sua custa: o desprezo de um touro é temível porque é animal potente e orgulhoso, rápido, certeiro, que sabe para onde quer ir e finta tudo o que lhe aparece no caminho. Um homem enfrenta-o, anicha-se-lhe nos cornos, anda para ali aos saltos e reza - literal ou metaforicamente - para que um dos cornos ou os dois não lhe furem a jaqueta mai-la pele e ainda um órgão qualquer que esteja no caminho.

A medicina moderna tem muitos remédios para buracos feitos por cornos de touros. Já para os buracos que fugir à luta provoca e não se vêem  (mas sentem-se) não. A surdez e a cegueira seriam uma solução, pensou Atanásio; mas não encontrou médico que lhe furasse os olhos e os tímpanos.

O mundo de Atanásio é uma linha muito estreita que separa zeros de um lado e uns do outro, sins de nãos, brancos puros e pretos totais. Aqueles passeios largos onde cabe tudo, de zero a um, graduações de cinzentos, não sim mas talvez, tudo ao molho e fé em Deus, pecados veniais, mortais, arrependimento, confissão, on recommence Florence, passeios nos quais um gajo não pode andar a direito sem tropeçar numa dúvida não eram para ele.

Atanásio Beldade regia-se por princípios rígidos e claros: de um lado está o touro; do outro, numa direcção cento e oitenta graus oposta, não está e escolhe-a portanto, virando as costas ao bicho.

Não sabemos se essa opção lhe salvou a vida se não: podia ter enfrentado os aguçados cornos da besta e sobrevivido. Fugindo perdeu-a, isso é garantido. Deixou de ser Anastácio Beldade: passou a ser tratado por A Beldade, até a vida se ria dele, que era feio como os trovões; se antes do episódio a ironia de "Beldade" era  benevolente, depois deixou de o ser. Tornou-se malévola, acintosa, agressiva. A vida não perdoa quem dela foge.

A vida não perdoa quem acredita em linhas rectas e estreitas. Depois do incidente Atanásio foi condenado a vinte anos de incapacidade de sonhar e outros tantos de proibição de dar.

A dádiva é privilégio de quem pode sonhar, de quem conhece os tortuosos caminhos da vida e lhe sabe o fedor, de quem - sobretudo - conhece o medo. Sem medo não há coragem, não há generosidade.

Virar as costas ao medo é recusar a generosidade. Atanásio está condenado a passar o resto da sua vida sem poder dar nem dar-se.

Não há pior castigo do que ser-se privado de medo.