27.1.18

Verdade

Se não se esquartejar a verdade nunca a conheceremos. É preciso sem anestesia esfolá-la, cortá-la aos pedaços, separar-lhe dos ossos a carne, os tendões, as cartilagens, violá-la sem misericórdia.

A verdade não se entrega à delicadeza: vende cara a pele, sim, à violência. Alimenta-se de sangue, esporra, cuspo, murros nos dentes e pontapés nos tomates. Morde, mente e defende-se com unhas e dentes.

É preciso imaginar um jardim público com um pequeno lago e uma senhora sentada, delicadamente a olhar para os cisnes brancos enquanto folheia uma revista qualquer. De tempos a tempos suspira e lamenta ter esquecido o tricot em casa da filha que hoje foi visitar; não é ali que encontraremos a verdade. É na morgue, que fica do outro lado da cidade.

Por isso anda tão pouca gente atrás dela e é tão fácil reconhecer na rua quem o faz: esfolados vivos, a pele pende-lhes às tiras do corpo ensanguentado como lulas a secar ao sol. Não falam, só gritam ou balbuciam textos de Lautréamont, Rimbaud, Beckett, Hamsun, London, Pessoa, Dostoievski, Cioran, Nietzsche, Pizarnik (para eles os outros não passam de senhoras deitadas na relva a discutir a última moda com mais ou menos talento). Têm a roupa em farrapos e o nariz esborrachado dos sucessivos e imparáveis murros que ao longo dos anos foram levando nas épicas cenas de porrada com a verdade.

O sol deste fim de dia incendeia-lhes as feridas. Em breve será noite. Em breve não dormirão.