16.2.18

Diário de Bordos - Lisboa,16-02-2018

É preciso dar graças: os males sucedem-se mas não se acumulam. Veio uma espécie de gripe mais a cair para a constipação e foram-se - empurradas, aposto - as vertigens. Ora imaginem se em vez de se empurrarem se acomodavam umas às outras... Seria eu um albergue espanhol para vírus, batérias e quejandos; e quem me recebe uma espécie de agência de viagens. Antes assim, tipo comboio: amarradinhas mas seguindo-se. O meu sistema imunitário anda por baixo, é verdade: mais sensível do que eu (está longe de ser difícil) reage pior aos estímulos que de fora lhe chegam. Às más vibrações, por assim dizer, se fosse hippie ou new age e acreditasse nisso das vibrações que são simultaneamente particulas e enviamos uns aos outros, etc.

Não acredito em nada disso. Acredito em mim - este "mim" inclui o sistema imunitário, que hoje reforço com doses extra de whisky -. Para isso servia o rum dos antigos marinheiros: reforçar as fraquezas, como numa muralha os operários se despacham a pôr os tijolos que faltam. Les briques manquantes, diria em francês. E ainda há quem se admire de o francês ser uma ,língua elegante.

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Não percebo nada disto. Oiço um disco de Amélia Muge com um grego e o disco é soberbo.

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E dói-me a cabeça, mas isso tem a ver om a gripe, não é grave, meia dúzia de analgésicos e resolve-se a questão, mais meio litro de whisky mais cama mais o raio que parta esta porra toda.

Não há raio que parta esta merda toda. Ou sou eu ou não é ninguém, nem Zeus.

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As Núpcias de Cadmo e Harmonia é o melhor livro que li nos últimos duzentos ou trezentos anos, com algumas breves excepções. Penso nele enquanto a dor de cabeça aperta as mãos ao Paracetemol e ao whisky, com a música da Muge em fundo. A mulher canta como um deus vive: com a ligeireza e profundidade de quem sabe que conseguirá lidar com seja o que gor que aí venha.

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Já eu vivo como um deus canta: indiferente a quem me ouve. Não é tão bom, mas é o que há.