27.2.18

História triste e incompleta

Romualdo mantinha-se de pé. Estava exausto mas acreditava que se se deixasse cair ainda se cansaria mais. Escolhia entre dois cansaços como um funâmbulo escolhe o lado da corda para o qual quer cair.

"Prefiro cair estando de pé a cair estando caído" justificava-se enquanto espadeirava com os elfos. Eram muitos e ao contrário do que deviam, grandes. Renata, a mulher ria-se a bandeiras despregadas enquanto o via na televisão. Alugara um anão para a noite, com instruções precisas para lhe fuçangar entre as coxas, um palmo acima dos joelhos no limite inferior e o limite dos pelos púbicos no superior. O anão sabia que se extrapolasse dali Renata lhe cortaria a cabeça. Não era pessoa de faltar ao que dizia, apesar de dizer muitas coisas, sobretudo nos dias de sol.

A verdadeira razão destes limites estrictos, contudo, era mais prosaica: é que na região pélvica não corria o risco de se enamorar. Isto é: tinha prazer sem amor, coisa que mais acima ou mais abaixo era difícil de manter. Romualdo, por exemplo, seduzira-a com uma hábil mistura de mordiscar-lhe os dedos dos pés enquanto lhe acariciava a parte traseira dos joelhos.

Já Ricardo, por quem estava apaixonada quando Romualdo regressava das batalhas - Renata alternava os amores como a Lua as fases: estava sempre voltada para o mesmo lado mas variava o que deixava ver - tinha-lhe acicatado os desejo e os afectos falando-lhe aos ouvidos com a língua.

(Demasiado complicado para escrever mas quem já experimentou a técnica sabe o que quero dizer: sussurrar-lhes palavras bonitas enquanto se lhes passeia a língua pelos pavilhões auriculares. Uma excitação polissensorial multi-nível, por assim dizer.)

Enquanto o anão lhe escarafunchava a vagina, de telecomando na mão Renata via Romualdo bater-se com elfos gigantes. "Só este idiota seria capaz de encontrar elfos gigantes" pensava com carinho e ternura. Mas deve ter pensado em voz alta porque o anão zangou-se e mordeu-a. Pensou que ela o estava a gozar porque os elfos são anões, como toda a gente sabe (com a plausível excepção do marido).

Romualdo era uma anacronia ambulante, um D. Quixote que se dava ao trabalho de fazer moinhos verdadeiros antes de os combater e obrigou Sancho a uma dieta paleo. Rocinante é um puro-sangue lusitano que gosta de floreados e abomina galopar, não vá chegar a tempo a qualquer lugar. Nunca é montado para não se cansar. Se os sindicatos dos puro-sangues lusitanos sabem que os seus membros trabalharam um minuto que seja entram em greve indefinida.

Renata chamou um escudeiro e mandou-o degolar o anão: detesta que lhe mordam o clitóris, seja qual for a razão. Uma vez o serviço feito disse ao escudeiro que continuasse mas que tivesse cuidado com os dentes.

O escudeiro respondeu "sim, senhora"; mas a verdade é que se devem ter distraído os dois, a Renata e o servidor porque entretanto o programa dos elfos gigantes acabou, Romualdo voltou para casa, viu a mulher a ser lambida por um gajo de quem só via as costas e o rabo e chateou-se, claro.

Enfiou-lhe uma espada pelo ânus acima e começou a tratá-lo por "Escudeiro cu dado". "Cu dado, anda cá depressa", gritava, sabendo perfeitamente que ao homem custava andar com a espada enfiada no rabo.

É assim que a história acaba: uma mulher infiel mas lambida e em vida, um anão morto por se ter enganado a fazer o que devia - e para que tinha sido pago, acrescente-se em defesa da senhora - um escudeiro cu dado, um cavalo descansado e um amante amado do qual nada sabemos se não o nome.