15.2.18

Madalena

Madalena era simultaneamente impulsiva e calculadora. Não ao mesmo tempo, claro: não saberia dissimular a que não estava a uso porque era uma pessoa fundamentalmente honesta consigo própria e com os outros. Mas a mistura - ou alternância - de um racionalismo frio, calculador, que pesava os prós e contras do menor gesto com uma explosão de sentimentos inesperada era difícil de gerir, tanto por ela como por mim.

Um dia enganou-se numa reserva de bilhetes de avião e acabámos por viajar em voos diferentes. Não foi engano, foi um impulso. Pouco tempo depois deixava-me, com grandes manifestações de pesar. Não eram impulsos, eram calculadas. Escrevia magnificamente e cantava melhor. Ou ao contrário, nunca percebi. Zangava-se muitas vezes comigo porque lhe dizia que devia cantar mais, profissionalmente.

Madalena foi o meu principal, maior, mais doloroso falhanço amoroso. Estou-lhe muito grato por isso: traçou uma linha que sei agora não devo pisar, sob risco de pesadas sanções. Felizmente há poucas mulheres como ela e o risco de tropeçar numa é nulo.

Só não percebo porque me obstino a procurar.