4.2.18

Raiva: mundo, vida, tudo

Ferras-te à vida como um bulldog à perna do carteiro que te vem entregar uma carta, mas infelizmente não sabes de onde ela vem nem o que diz, não sabes se as notícias são boas ou más ou sequer se são notícias. Podia até ser uma carta do fisco, da polícia, da tua seguradora.

Não sabes o que diz a carta que o sacana do bulldog impede agora o carteiro de te dar e a pergunta é: algum dia saberás?

Com a mesma raiva entras no sono, te apegas a tudo o que ao alcance da mão te passe: uma manhã cheia de sol; um rio a fazer da luz a luz que fez a cidade que te fez e faz da luz o que é.

Luz: por ela colas à vida. Luz nuns cabelos loiros no bosque, num corpo moreno na mar, numa pele alva na neve, num peito cujos mamilos refulgem quando lhes tocas, num ventre que brilha quando te diz: olha-me, toca-me, apaga-me à beira desse mar que te fez luz, faz-me tremer, eriça-me os sonhos, faz-me de ti a vida.

Raiva: morde essa luz que te faz com raiva, com ganas, com unhas e dentes, entra por ela dentro como se ela fosse o mundo.

Ela é o mundo.