25.3.18

Diário de Bordos - Port d'Andratx, Mallorca, Baleares, Espanha, 25-03-2018

Cinquenta nós, diz-me o marinheiro hoje de manhã. Deve ter sido a rajada mais alta, mas mesmo assim é vento. Felizmente não havia vagas, de maneira lá consegui dormir.

O P. está encharcado por dentro. Um barco molhado é uma seca; uma das piores que conheço, jogos com palavras postos de lado.

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Chove e a merda do tinnitus não me larga. Malditas pragas.

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E assim entre chuva, tinnitus, um bote inabitável e um estado de espírito idem o domingo arrasta-se. Promete ser longo e chato, pelo menos até encontrar um canto confortável onde possa comer, ler Pizarnik mai-los jornais e acabar de escrever os postais, de que ontem comprei vasta cópia. Esqueci-me das canetas em Lisboa, vão de esferográfica. A diferença na caligrafia não se vê, continua ilegível. Ainda bem que têm fotografias: são foleiras a olho, mas pelo menos percebem-se.

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Não me lembro de quem o quê me levou a Pizarnik. Tenha sido quem ou o que for estou-lhe imensamente grato. A mulher escrevia como se a cada verso mergulhasse num poço dentro dela e não conseguisse sair se não escrevendo. Cada verso é um degrau para fora do poço.

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"Mas o silêncio é certo. Por isso escrevo. Estou só e escrevo. Não, não estou só. Há aqui alguém que treme".

(A tradução é minha. Ando a treinar).