24.3.18

Variação sobre tema alheio

"Não confundas as palavras com as coisas que elas designam", diz Leonard Cohen num texto bonito que acabo de ler. "Não levantes os pés do chão quando falares de voar".

Penso na borboleta que ele usa como fio condutor e vejo-a perante mim. Não a tento agarrar: as palavras são frágeis e morrem se as aprisionas, como a borboleta espetada com alfinetes na página do caderno de um lepidopterologista. Vejo a borboleta levar a mó de um moinho de vento. Mó real, não a fingir, grande, pesada e redonda: são poderosas, as palavras. Levam a mó para onde querem, deixam-na cair no poço.

Atrás de cada borboleta há um silêncio: cai no poço com a mó. São inúmeros, tantos quanto as palavras: cada uma tem o seu.

As mós são pesadas, toda a gente sabe. A borboleta que não é uma borboleta mas uma palavra leva-a de onde estava para um poço. Essa mó é na verdade um silêncio, de que o poço está cheio.

Para isto servem as palavras: carregar silêncios e deitá-los num poço.

Esse poço és tu.