4.3.18

Vento, deserto

Era do vento do deserto que falávamos. Já estive no deserto. Em muitos, até: alguns figurados e um real.

Refiro-me ao vento, não aos desertos reais ou metafóricos. Conheço-o: crescemos juntos, eu a ver navios e ele a impulsioná-los. Sei-lhe as manhas, quando finge que vai cair e ao contrário leva tudo pela frente; quando diz que vai entrar Norte e vem de Leste, sabe que é para ali que vamos; ou quando não vem de todo e nos deixa parados à espera de um par de olhos, um par de mãos, tudo liso e sem uma ruga, o fumo do cigarro a subir na vertical e o olhar perdido na falta de uma aragem que seja.

"Embaciado", diz Raúl Brandão. Fremente, digo eu: da imobilidade fazer uma fremência, um tremor, uma palpitação imperceptível e esperar que o vento volte como tu voltarás, como tudo voltará.

Imperceptivelmente: grão de areia no deserto, dia sem vento, noite sem Lua, solidão sem fim, desejo sem braços, mãos sem ventre, seios sem olhares, adubo sem terra.

Voltarás, vento.