14.4.18

Beatriz

"Falemos então de marinheiros bêbedos", dizia-me Beatriz no Bar Subterrâneo, um bar que comecei a frequentar vai para cima de dez meses, ou talvez dez anos, é estranho como tenho melhor memória para números do que para as palavras e digo isto apesar de me lembrar perfeitamente das palavras dela: "falemos então de marinheiros bêbedos".

Disse-lhe que isso era simultaneamente um mito e uma redundância, um pouco como falar dos cabelos "de Beatriz", uma espessa cabeleira ruiva que ela insistia em cortar apesar de eu me opor veementemente.

"Cabelos de Beatriz" tornou-se assim desta forma lenta uma palavra de código entre nós e designava coisas de que não queríamos falar, coisas que sabíamos estarem ali ao alcance da memória mas não ao da mão,  coisas que se nos escapam de tão fluidas e tão densas ao mesmo tempo, como as bebedeiras de um marinheiro quando chega a terra ou os cabelos ruivos de Beatriz quando ela excepcionalmente não os cortava e as minhas mãos - essas mãos que tantos copos haviam levado à boca - se neles perdiam sem se perderem,  como um navio no temporal: não está perdido, mas está e assim nesses cabelos, nesse temporal se as minhas mãos divagavam enquanto eu lhe dizia aos ouvidos o mar e lhe falava de ténue linha que separa um sonho daquilo em que ele se torna, uma linha ténue mas preenchida, vivida, feliz.

Beatriz não respondia,  deixava-me às mãos as palavras, cada carícia era uma sílaba e quando completava uma frase dizia-me: "é bom ser amada pelas tuas palavras", mas eu queria amá-la com as mãos e com a pele toda e por isso continuava e ela cortava o cabelo para eu me reencontrar, acabar com o temporal e voltar ao que sou: um velho marinheiro bêbedo apaixonado pelos cabelos ruivos de um temporal.