14.4.18

Primeira carta a Pandora

Lisboa, 10-04-2018

Minha querida Pandora,

Ao longo dos anos fui aprendendo que se a pila e as palavras apontam para a mesma mulher ela é importante. Significativa. Cheia de sentido.

Isto é. Quero dizer: sempre tive a pila vagabunda e as palavras errantes, tu sabes, conheces-me como se me tivesses feito. Só algumas mulheres - raras - conseguiram alguma vez dar casa àquela e direcção a estas. Às vezes coincidiam a casa e a direcção, mas nunca consegui antever essa por assim dizer coincidência e muito menos compreender o seu valor.

Hoje não só sei a raridade que é ter duas agulhas a apontar para o mesmo Norte como aprecio desmesuradamente a coincidência, talvez por o ser cada vez menos. As mulheres que me atraem atraem-me todo, por atacado como se dizia antigamente nas lojas, venda ao retalho e por atacado, não era?

O atacado agora é só um, inteiro, pila e palavras "Quer que embrulhe?" "Não é preciso, obrigado, isto mal chegue a casa vai ser posto a uso, uma e outras" "Óptimo, que lhe façam bom proveito".

Bom proveito fazem, tanto mais que é a dividir por dois e estas coisas quando se dividem multiplicam-se.

Não abras a caixa, mas junta-lhe as palavras e o desejo erecto e duro. Saberás como fazê-lo.

Teu,

Prometeu