8.4.18

Diário de Bordos - Lisboa, 08-04-2018

Numa pequena nota à parte e que não tem nada a ver: não sabia que as faculdades de Medicina têm critérios estéticos para a admissão de jovens estudantes do sexo feminino tão severos como os das notas. São todas bonitas, muito mais do que o acaso permitiria se não houvesse os tais critérios.

Antes assim. Um gajo sentir a realidade entrar-lhe pelas orelhas, pouco a pouco, sílaba a sílaba é bastante menos doloroso se as sílabas - ou a realidade, como preferirem - saírem de um bonito palmo de cara.

(Hoje tive um bónus e foram duas as caras bonitas).

A realidade é chata, mas não dramática: o meu coração não é fundamentalmente diferente do das outras pessoas do meu género e idade. Não sou muito dado a grupos e fazer parte deles nunca foi um grande objectivo para mim; este - o das pessoas com riscos cardíacos - é vasto e aparentemente inescapável. Fico a sabê-lo por uma voz calma, sorridente, simpática, que me explica o que vou fazer, os riscos, as escolhas. Optei por ficar: não quero que isto volte a acontecer e muito menos no mar. São sessenta anos que valem por cento e vinte ou cento e oitenta. Vivi muitas vidas, altos e baixos muito baixos e muito altos.

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E preciso que tudo mude para que tudo fique na mesma? Não será antes É preciso que nada mude para que nada fique na mesma?

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Enfim. Tenho livros, amigos e filhos, um grupo de pessoas que trata correctamente de mim em condições adequadas e energia para o que aí vem.

Não tenho de que me queixar, mesmo que isso implique integrar um grupo.