15.4.18

Segunda Carta a Pandora

Lisboa, 15-04-2018

Minha querida Pandora,

Não abras a caixa. Uma vez soltos os demónios não se deixam apanhar: a liberdade é um vírus e eles não são diferentes de nós. Quem tendo sido livre escolheu voltar para a prisão  que lhe foi imposta?

Tu não e eu tão pouco: nunca não fui livre, nunca deixei um único demónio com fome ou sede de uma carícia, nunca desde que te conheço deixei de te pensar livre.

Mas disso nada sei: que sabe uma nuvem sobre as nuvens, excepto talvez saber a que dá mais água, sombra, neve, vento?

O ideal seria escrever sobre o que sei. Conhecer-te a pele, as mamas, o ventre, ter-te despenteado o cabelo e sido visto por esse olhar transparente, como tu lhe chamas; beijado dos lábios aos pés, ouvido gemer os gemidos que te dei.

O ideal porém morre numa praia, não é?

Um dia trar-te-ei o fogo e enterrar-to-ei fundo, de onde nunca mais sairá; as ruas da cidade serão tuas para sempre.


Prometeu