10.5.18

Diário de Bordos - Paguera, Mallorca, Baleares, Espanha, 10-05-2018

O bar Stop é o único sítio da "rua principal" (aspas porque traduzo) que não é para turistas, diz-me I. Suponho que seja verdade porque é o único que está vazio. Quando cheguei - vindo de uma coisa infecta onde comi uma salsicha alemã e batatas fritas que me fizeram pensar nos Estados Unidos - o patrão estava a jogar às cartas. Considerou inútil interromper o jogo para me servir. Acabou de distribuir as cartas, deixou o copo de vinho que lhe pedi (e é abominável) no balcão e voltou para a mesa de jogo.

O homem faz vagamente lembrar o patrão do Stop do Bairro, sito em Campo de Ourique, no qual me aconteceu uma coisa gira: a primeira vez que lá fui uma imperdível necessidade de escrever acometeu-me sem eu querer, de modo passei o jantar todo a escrevinhar num dos blocos-notas que usava antes de me habituar a fazê-lo no telefone. Escrevi durante todo o jantar e o homem convenceu-se de que eu estava a tomar notas para um artigo sobre o restaurante, de modo tratou-me como se eu fosse uma mistura de Jose Quitério, Virgem Maria, Francisco Balsemão e Miguel Esteves Cardoso. Aquilo foram mimos sem fim - ainda recordo com emoção a garrafa de vinho que ele trouxe para eu acompanhar a refeição -.

Quando chegou a conta fiquei siderado: era muito menos do que eu esperava. Uma ninharia. Um achado.

Um mês depois voltei lá, sem caderninho. O homem não me reconheceu. Pedi o mesmo vinho mas um alarme tocou e perguntei-lhe o preço. Custava três vezes o que eu pagara pelo anterior jantar todo.

Agora escrevo no telefone e já ninguém pensa que estou a tomar notas.

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O dono do bar Stop fala alemão. Um casal daquelas bandas sentou-se na mesa ao lado. São visivelmente conhecidos.

Mais um mito que desaba.

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A senhora alemã à minha frente tira fotografias ao marido com o telefone. Umas a seguir as outras, como se tivesse medo de que ele se desvaneça de um momento para o outro e se transfome no homem invisível.

Uma delas deve ter ficado bem: o senhor ri-se e bate palmas. Depois volta à sua condição de homem inaudível.

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O licor de hierbas secas é uma merda. Só deve vir a este bar quem gosta de bares vazios (e de homens no princípio da terceira idade que podem desaparecer a qualquer momento).

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Sábado vou a Palma comprar outro computador. Espero que seja o último sal que a ferida recebe. Ainda dói horrivelmente.

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A única livraria de Paguera é alemã e só tem livros em alemão.

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Adenda: quando fui pagar a conta no Stop tive de pedir ao senhor que repetisse. Duas vezes. Ele deve estar habituado: explicou-me quase como se pedisse desculpa que aquilo "é um bar familiar" e que ele "não é como os outros que só pensam em dinheiro".

Acho sinceramente que me vou juntar à família.

(Assim é facil de perceber porque estava vazio: ninguém vai de férias para desperdiçar oportunidades de mostrar o dinheiro que tem.)