17.5.18

Diário de Bordos - Paguera, Mallorca, Baleares, Espanha, 17-05-2918

A senhora tem mais de sessenta anos, deve andar perto dos setenta, ponham ou tirem cinco. Está visivelmente grossa, mas composta.

Diz-me "primeiro os maiorquinos, depois os estrangeiros". Respondo "primeiro as senhoras, sejam de onde forem", mas ela não regista. É a amiga que lho mete na cabeça e acrescenta "o senhor é um cavalheiro".

Ao meu lado está alemão apalhaçado. Fala sem parar e ouve-se falar, sem se aperceber de que é um chato sem piada, ao contrário do que pensa.

A lista de personagens é curta mas o almoço excelente (uma sandes de presunto e dois chocos comprados no stand ao lado. Um gajo traz as compras para este e eles cozinham).

Tudo começou porque estava perto do mercado de Sta. Catalina e quis beber um vermute da U., que de dia trabalha aqui e à noite tem a Sifoneria. Apareceu um senhor - cliente dela - com um prato de presunto para provarmos. Acabei por ficar-me a ver e a ouvir. Retribuí o presunto ao senhor com uma cerveja e pensei em quantos Charlies (é o nome do alemão, há destinos que nos são fixados à nascença) já vi por esse mundo fora. E no que é bom encontrar um desconhecido que nos oferece um bocado de presunto e aceita uma cerveja. A nossa troca limitou-se a isto, mas é preciso tão pouco, não é? Um gesto chega, um braço estendido para oferecer, outro para aceitar, um sorriso, um momento que se partilha, um prazer oferecido, toma, prova, é bom.

A U. não vende comida, a cena passa-se num stand lá perto, estou sentado num canto do balcão como se estivesse num canto do cinema.

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Isto foi há alguns dias; entretanto muita água passou por baixo das pontes, clara, fresca, há que fazer no P. mas aquilo avança com a habitual mistura de boas e más surpresas, de tanto se repetirem já nem surpresas são, é só uma alegria embrulhada em papéis diferentes.

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Descobri um restaurante italiano perto do hotel (ou de casa?) e hoje fui lá comer uma pasta al nero di sepia que estava má. Quando se comeu aquilo feito por um cozinheiro atrasado mental que só sabia fazer seis pratos mas os fazia tocado pela graça (a única no meio da desgraca toda) é difícil. Menti ao homem, disse-lhe que estava muito bom. É o que dá pedir pratos que não estão na lista, teve de ir comprar a tinta mai-los chocos e depois vai de caminho inunda aquilo de tomate (ele não, a cozinheira, magra de tal forma que um canibal pensaria estar a comer peixe se lhe pusesse o dente), mas bom.

O pior foi ter comido de mais. Assim não emagreço, que maçada.

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Entretanto já o ano vai a meio, que é como quem diz acabou.

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Diálogo sucinto mas agradável com uma "amiga" (entre aspas porque) do Facebook. Fez-me ir à procura de um post que com um bocadinho de sorte merece algum trabalho.

Este ano o DV vai fazer quinze anos! Está lá tudo (quase).

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Quem envelhece é o blog, não eu. Deviar ser ao contrário. Mas como, se os dias são todos novos?