10.7.18

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 11-07-2018

Não é a primeira vez que termino uma relação profissional ao fim de muito pouco tempo. Esta durou dois dias. Não são eles, claro. Sou eu. E o P., que a partir de agora vai precisar de muita atenção e eu sou demasiado simples, troglodita, simplório para me dispersar. Ao contrário de uma mulher - ser autónomo, independente - uma embarcação requer uma atenção permanente, mesmo estando longe (o P. está a cerca de quinze milhas de Palma, o mesmo que de Lisboa a Cascais).
Isto é: não quero nem posso aqui desenvolver grandes teorias sobre a fidelidade, o poliamor (uma treta cuja utilidade me parece dispensável, como usar o amor aos animais para justificar o vegetarianismo ou teorias tântricas para o gozo sexual). O P. vai entrar numa fase do refit que não me apetece partilhar com outras embarcações.

Refit é uma palavra doce. Uso-a com certo deleite. Curiosamente, rejeito o seu equivalente - cirurgia plástica - numa senhora. Penso que as pessoas devem envelhecer com graça e naturalidade.

Um barco, ao contrário - sobretudo se for construído em sandwich de Kevlar / carbono e espuma de alta densidade, tiver sido desenhado por Hugh Welbourne e construído nos estaleiros Green Marine - não deve envelhecer. Deve rejuvenescer.

Nunca mais ganhará uma Fastnet, claro. Mal estaria o desporto da vela se isso fosse possível. Mas merece uma, duas, três operações plásticas, da mesma forma que um monumento deve ser mantido e uma mulher amada: com carinho, devoção e uma entrega total.

Por isso me despedi tão depressa do meu novo emprego.

Às vezes a liberdade parece-se tanto com uma prisão, não é?

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Como sempre, alguma coisa boa ficou. Neste caso, a carta de condução. Se a burocracia portuguesa não implicar muito em breve terei a minha carta na mão. Por agora já posso conduzir, com a carta internacional.

Na cidade ando de bicicleta - não há melhor forma de locomoção urbana -. Para ir e vir de bordo o carro é insubstituível. Os transportes públicos inter-urbanos nesta ilha são uma porcaria. Através do M., O senhor a quem comprei o motor do P., encontrei um carro mais barato por dia do que uma viagem de ida e volta de Palma para Puerto de Andratx (enfim, isto não é totalmente verdade. O carro tem custos extras que a viagem de autocarro não tem).

A verdade é que graças ao automóvel redescubro a liberdade que lhe vem associada.

De manhã saio de casa e vou de bicicleta até à garagem, que fica - diz-me o Google - a dois quilómetros. Encadeio-a a uma árvore e ali a reencontro à tarde.

Há quem chame a isto o melhor de dois mundos. Não é totalmente falso, mas eu prefiro outra designação: sorte.