10.8.18

Gatos? Seios?

Não percebo muito bem esta espécie de religião à volta dos gatos (enfim, não percebo religião nenhuma, seja ela qual for). Convivi catorze ou quinze anos com uma gata a quem deixei de falar logo nos primeiros dois meses Ela retribuía-me, sem sombra de agressividade. Vivíamos os três num apartamento minúsculo (a terceira pessoa sendo a minha então mulher, proprietária da dita bicha).

O nome da gata era Masha. Tinha sido dada à jovem senhora pela mãe de um paciente (S. tratava da saúde mental de crianças). O puto tinha o hábito de pegar na Masha pela cauda, volteá-la duas ou rês vezes em cima da cabeça e lançá-la contra uma parede. Com o tempo a gata desenvolveu uma hiper-sensibilidade à cauda e a mãe do puto resolveu tirar-lha (ao puto. Não a hiper-senibilidade. Essa ficou para o resto da vida).

Detesto antropomorfizar comportamentos animais e mais ainda etologizar os humanos. Sei que a gata, talvez para testar os recém-chegados tinha o hábito de vir lascivamente roçar-se contra mim. Eu punha-lhe a mão no dorso, a gata avançava e mal lhe tocava na cauda ela mordia-me. Isto durou algum tempo. Depois parou, por vontade - devo dizer - minha. Ela que se roce se quiser. Mantivémos este status quo catorze anos. De vez em quando mudava-lhe a areia ou dava-lhe de comer e ela deixou de se roçar em mim. Foi uma convivência sã, simples e agradável.

Masha protagonizou uma das raras histórias de gatos que aprecio realmente: um dia a então jovem dona chegou a casa, despiu-se da cintura para cima - quem disse "Casa é onde se tira o soutien?" - e apercebeu-se de que a Masha tinha saído. A porta ficara mal fechada. A jovem, quiçá irreflectidamente saiu para a ir buscar e vlammmm, a porta fecha-se.

Ou seja, temos neste momento uma gata felina e uma gata psicóloga no patamar, sendo que esta última está nua da cintura para cima. A primeira coisa a fazer é, naturalmente tentar pegar na gata, coisa que ao fim de algum tempo conseguiu. A segunda é usá-la para tapar os então jovens seios (tive a sorte de os conhecer pouco depois de tudo isto se passar) e a terceira, naturalmente, é ir ver o porteiro do prédio, que tem a chave de todos os apartamentos.

O porteiro era italiano, mal disposto e malcriado, casado com uma senhora ainda pior. Tive a sorte, repito, de conhecer todos os intervenientes nesta cena, desde os seios até à mulher do porteiro, que por acaso se aproximou da porta quando ele falava, falava, falava e falava com a psicóloga do primeiro andar e o mandou embora agora, já: "Giuseppe, rentra" (não sei como se diz em italiano: "volta para dentro e ai de ti se te vejo fora da sala"). A dona da gata e dos seios hesitava entre uma gargalhada brutal (tinha um sentido de humor que resistia a qualquer situação) e a circunspecção de quem precisa urgentemente que lhe abram a porta de casa.

Masha, que detestava ser agarrada, debatia-se violentamente. A porteira foi abrir a porta e nunca mais olhou para a dona da gata com um olhar normal. Nem para mim, que nada tinha a ver.

Um dia S. disse-me "não tarda a Masha vai morrer, eu gostaria de ter outro gato, tu importas-te?" (cito de memória). Disse-lhe que não, claro. Não-falar a uma gata ou um gato é um descanso. Pedi-lhe apenas, em troca, que me deixasse dar o nome ao novo inquilino. Chamei-lhe Beckett por várias razões que não vêm agora ao caso.

O desgraçado do Beckett acabou mal: foi eutanasiado por comer os tomates da A. Mas esta fica para depois, chega de gatos por hoje.

Não percebo nada de gatos e estas histórias só me vêm à memória porque ontem vi uma fotografia de uma senhora com gatos no lugar dos seios.