16.6.19

Queima-te

Noites labirínticas, muito mais do que transição entre dias. (Há uns tempos dirias que os dias são a transição entre noites.) Labirintos nocturnos incendiados pela sombra do dia, isso sabes. Mas - que dia? Hoje, amanhã, aquele longínquo no qual te apaixonaste por uma jovem actriz russa? Que sombra, que dia?

Que incêndio, que labirinto?

Noites hesitantes. Tacteias o caminho entre flores, não as queres esmagar. A luz perde-se nos corredores do labirinto. Não tem saída nem - descobres agora, aterrado - entrada. As portas fecharam-se e não foram substituídas por outras abertas. O fogo crepita: deixaste o silêncio perder-se contigo, lado a lado, de mãos dadas.

O labirinto é hipnótico. Leva-te a uma praia no Algarve, a outra em Moçambique ou no Rio de Janeiro, a todas em cujas areias esperaste pelo mar. A um pinhal. A um veleiro que navega por brisa ligeira, levemente, no Sul da Irlanda, nos Açores, no Mediterrâneo, nas Caraíbas.

É noite, alguém algures te ama. Há um labirinto em fogo no qual ignoras se já entraste, que te ignora, indiferente. É noite, tu perdes-te, o dia afasta-se de ti em vez de se aproximar.

Há algures um labirinto que te espera quando esta noite se apagar. Apaga a luz, apaga o silêncio, deixa apenas o crepitar das chamas do tempo que arde, sempre ardeu. Não te queimes.

Queima-te.

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