11.7.19

Problemas de homem branco, problemas de africano

Ultimamente uma questão persegue-me (enfim, não é uma. São muitas, mas falo de questões grandes, não de minhoquices como pagar a fornecedores ou comer): onde é que a minha geração falhou? Nasci em 57, sou um baby-boomer a cair para o tardio. A minha primeira hipótese é que nós resolvemos os grandes problemas (liberdade, igualdade - não, não é provocação, mas pode ficar para depois - prosperidade) e deixámos para a geração dos nossos filhos aquilo a que os africanos chamam "problemas de homem branco": o sofrimento dos animais, o ambiente, o vegetarianismo galopante, o desprezo pela ciência...

Releio-me e apercebo-me de que estou na pista falsa. O sofrimento dos animais é uma questão importante, mesmo que seja um problema de homem branco. O mesmo se passa com o ambiente: deixámos tecnologia para lidar com os problemas que o rápido desenvolvimento do pós-guerra criou, é questão de a melhorar - como aliás está a ser feito, como aliás seria de esperar. Nao é por aí.

Um dos problemas que deixámos, sem dúvida, foi ter demonstrado a inanidade das doutrinas totalitárias, comunismo em primeiro lugar. O ambientalismo e os seus off shoots não passam de anticapitalismo com roupa nova. Aquilo que não conseguiram matando milhões de pessoas, os anticapitalistas tentam conseguir asfixiando a economia. Não vão conseguir, claro: não se mudam milhões de anos de evolução com meia dúzia de patranhas (nem os tais milhões de mortos o conseguiram...)

Mas também não é aí que se revela o nosso falhanço. Nem o ambientalismo nem o sofrimento dos animais - coitadinhos - nem o yoga, o vegetarianismo, a homofilia obrigatória, a futebolização da política seriam um problema se fossem abordados e defendidos racionalmente. Sempre foram, de resto. Sempre consegui debater com os meus amigos as suas opções de vida, as suas opiniões, a sua visão do mundo. Eram discussões por vezes violentas - verbalmente - mas o que se esgrimia eram argumentos, não eram insultos.

Onde nós falhámos - e eu confesso que gostaria de perceber porquê e este post não é mais do que um primeiro passo - foi em ter deixado que a sociedade se transformasse num conjunto de tribos. Quem não é da tribo à qual se pertence não tem direitos, não sabe pensar, é um fascista, um homófobo, um primário que só pensa em ver animais sofrer, um facínora que sonha com o fim do planeta. Foi em ter deixado regressar a era do pensamento mágico. A ciência é vilipendiada - em que ano se começaram a reembolsar os medicamentos homeopáticos? Em que ano se começou a acreditar nas "drenagens linfáticas"? Em que ano as touradas se tornaram um problema? Não sei, mas acho que é aqui - na tribalização da sociedade e no desprezo pela ciência - que devo começar a procurar respostas para a pergunta que há tempos me persegue.

Até lá, vou pensar nos problemas menores, os chamados "problemas de africano".

Sem comentários:

Publicar um comentário

Não prometo responder a todos os comentários, mas prometo que fico grato por todos.