29.1.20

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 29-01-2020

É quarta-feira e Palma pesa-me cada vez mais. O Bar Rita está fechado, suponho que para férias; a Tasquita fechada está, a S. foi à terra; a U. idem, mas à do irmão, que vive em San Diego; o Can Rigo fechado porque é quarta-feira; o Cala Seu porque fechou há meses, pressão imobiliária; no Moltabarra não se pode comer nem depois de uma greve da fome. Para coroar, o Antiquari está a abarrotar e ainda por cima de putos: demasiado barulho e demasiada beleza. Nada excita mais a velhice e a amargura num velho do que esta combinação de uma coisa irritante com outra inatingível. Não há Mount Gay mas já me habituei à merda do Barceló (num dia normal não é uma merda, isto acontece só hoje, prova provada de que nada é impermeável às condições de quem o observa).

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O P. continua a presentear-me com cheques-surpresa. Não há melhor igualizador do que o mar e os botes que nele navegam. Qualquer ideia de que "isto só acontece aos outros" é inexoravelmente desfeita, mais tarde ou mais cedo, seja por que método for. Felizmente o JW - querido JW - diz-me que não é grave. Ainda vou acabar a agradecer à Glória a lição: quando vires que alguma coisa não está a cem por cento, não acredites que se vai manter como está. Vai deteriorar-se.

Lição essa que conheço há pelo menos trinta anos, mas se mantem jovem e novel devido às duas primeiras características do marinheiro, já aqui referidas: a teimosia e o optimismo. (As duas seguintes são o pessimismo e a flexibilidade). A depressão fez uma racha no pé de um balaústre e dois dias depois aparece água a pingar não muito longe. O Stan (digo-lhe o nome porque os deuses devem ser nomeados) vai ter mais trabalho do que eu - e ele - prevíramos.

O que me chateia é que na expressão cheque-surpresa a surpresa é para mim e o cheque para a armadora. Acreditem se quiserem, mas isto dói-me como se fosse ao contrário. Ou mais, na verdade. É que chega a um ponto em que já nem sequer é uma questão de cheques ou surpresas. Transforma-se numa espécie de corpo-a-corpo, um diálogo de punhos fechados e olhos nos olhos entre nós e o bote. E ainda há quem acredite que um barco é um objecto inanimado.

Não é. É um ser vivo habitado simultaneamente por deuses e por demónios e nós não passamos de árbitros da luta entre eles. Luta sem fim, acrescente-se: deuses e demónios são imortais.

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Nada jamais em mim foi precoce, com a possível excepção de algumas ejaculações (todas o são, de qualquer forma, não há de que me desculpar).

Há, algumas, mas agora é tarde. De qualquer forma já as expiei o suficiente.

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Vou para casa, tratar da cera e do tempo. O coiso está a ficar bonito. Não sei é como o vou levar para casa, quando tiver uma, mas isso é outra história. 

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