16.9.20

Gazeta Rural VI - OS LUGARES QUE DEIXAMOS

          Pensamos muitas vezes nas cidades que já visitámos, nos países onde estivemos, naqueles aonde gostaríamos de ir. Mas quantas vezes nos lembramos dos lugares que tivemos de abandonar, voluntária ou involuntariamente? (Sim, há «ter de» voluntário: uma vez estava na Horta, na Pousada. Era o meu aniversário, tinha ido jantar com uma senhora fotógrafa e bailarina – isto é uma combinação que não se inventa – americana de ascendência açoriana, o que explica a sua presença no Faial. Não seria justo dizer que era minha namorada – tínhamos iniciado uma relação afectiva uns dias antes, semana, talvez duas – mas tão-pouco era aventura de passagem. Depois do jantar – num dos restaurantes chiques da Horta, não me lembro o nome – fomos para a Pousada. Como provavelmente sabem dá directamente para a marina. A senhora era muito bonita, morena e musculada, inteligente e culta. Às duas da manhã eu ainda não tinha adormecido, ela sim. Dormia ao meu lado, solta e feliz, os longos cabelos negros espalhados pela almofada, o ventre e as pernas musculadas da bailarina à vista, a dizerem-me: «Não me deixes.» Às duas e meia da manhã decidi que tinha de me ir embora. Vesti-me, ela acordou, expliquei-lhe que ia para Lisboa e se ela quisesse vir era bem-vinda a bordo porque ia fazer a viagem sozinho. Hesitou um pouco, disse «Não vou», combinámos encontrar-nos em Lisboa e vim-me embora. Creio que este é o melhor exemplo, se bem não seja o único, de uma pessoa querer ir-se embora porque tem de ir-se embora. «Os teus cabelos, o teu amor, o teu ventre, as tuas pernas de bailarina são um repto demasiado forte para a minha fraqueza. Vou-me embora e quando nos reencontrarmos em Lisboa estaremos em igualdade.»)

          De que sítios saí, ao longo da minha vida? Saí de Quelimane e de Lourenço Marques, sem querer. De Nakhodka, idem. De Caracas, querendo. Detestei aquele país, hoje vejo que injustamente. De Lisboa. La Chaux-de-Fonds, duas ou três vezes. Aveiro, onde acabara de passar um ano. Zurique... Que horror! Ainda não estou em metade da minha vida e já deixei metade de meio mundo. Passei a vida a deixar lugares, pessoas, vidas. Viajar, muito mais do que chegar a qualquer lado é largar desse lugar, seja ao fim de quatro meses seja depois de mil sonhos. Como quando larguei dos Açores pela última vez, desta vez de avião, parecia que deixava para trás uma tonelada de basalto que trazia agarrada às costas. O meu barco chegou depois, chamava-se Don Vivo e ficou arrestado na marina de Vilamoura por causa de um polícia marítimo maldoso. Havia muitos, nesses longínquos anos oitenta. 

De onde é que já saí? De Maputo, mas ainda é cedo para pensar nisso. De Bocas del Toro – larguei, voltei a entrar, voltei a largar e ainda hoje penso no Palmar Tent Lodge onde ia todos os dias ao fim da tarde beber um rum punch e ver o mar numa das praias mais bonitas que me foi dado ver. (Não sou grande apreciador de praia, por isso dizer que aquela praia está ao nível da de Salines, na Martinique ou das do Parque Nacional Manuel António, na Costa Rica, ou daquela onde ia nas Filipinas, não recordo o nome, é dizer muito.)

          Deixei Genebra aos bocadinhos, levei quase dois anos a mudar-me para Cascais – daqui a dias estarei ali de novo, o que me leva a pensar no que é «deixar um sítio», partir. Alguma vez partimos, verdadeiramente? Onde é que ia, antes deste desvio todo? Zurique. Nunca mais ali voltei. Morava na Niederdorf, no centro do centro. O apartamento ficava por cima de uma boutique da moda, que não tinha cabines para as senhoras mudarem de roupa. Quando saía para ir trabalhar – trabalhava nas limpezas, para um refugiado político checoslovaco que só não me surpreendeu porque já tinha estado na Rússia Soviética. O homem conhecia o conceito de exploração até ao fundo e levava-o a sério -  via as senhoras na boutique a mudar de roupa no meio da loja, visão abençoada naquele tempo em que ninguém usava soutien. Limpava bancos (literal, não metaforicamente). Um dos que limpava tinha uma quantidade que me parecia ilimitada de obras do Christo e ali me familiarizei com as obras deste artista. 

          Outra cidade que deixei várias vezes e nunca deixei foi S. Luís do Maranhão, onde ainda hoje um bocadinho de mim se passeia pelas ruas e ao fim da tarde vai beber uma cerveja ao Mercado do Peixe, ver o decote da Jeny e trocar com ela sorrisos de entendido: «Este decote serve para vender cervejas», diz-me. «Eu sei, Jeny». Falávamos sem trocar uma só palavra. (Não sei de onde vem este gosto pelo entendimento tácito. Suponho que seja a noção de pertença a um grupo. Esta grande fraternidade de pessoas que não se conhecem, mas conhecem as mesmas coisas, viveram as mesmas situações, passaram pelo mesmo e sabem que hoje sou eu e amanhã és tu e depois de amanhã será outro e é para isso que estamos cá.)

          Deixei Antigua, aonde espero nunca mais voltar; Bequia, onde quero voltar para morrer. Deixei St. Martin, ilha mágica porque mistura tudo o que as outras são. Deixei Jost van Dyke vezes de mais porque ali se  bebe o melhor cocktail do mundo – chama-se Painkiller e é o único cocktail que conheço cujo nome corresponde à realidade. Deixei Bitter End, fim amargo de tudo o que de bom aquelas ilhas têm. Deixei o Burundi, vencedor vencido e o Zaire, vencido mas revoltado. Deixei Kindu, uma evacuação como aquelas que se vêem nos filmes, soldados armados por todo o lado, o avião a parar para me deixar entrar, uma mãe a ter de escolher qual dos filhos a acompanharia na fuga.

As partidas marcam mais do que as chegadas, com a possível excepção de Bequia (pronuncia-se Béqüei) porque ali mal cheguei e pela segunda vez na vida vi o lugar onde quero morrer (o primeiro é praticamente inacessível. Chama-se península de Burton e fica na margem oeste do lago Tanganica. Não se pode querer morrer num lugar ao qual não se pode voltar). A Bequia quero voltar, todos os marinheiros querem. Richard Dey escreveu as coisas mais bonitas que há sobre esta ilha. Não tenho o livro comigo, mas é de lá que vem aquele verso que não me deixa: «I know them. I am one of them.»

          Já deixei mais sítios do que aqueles a que cheguei: a matemática das viagens não é algébrica, é alquímica.

 (Para o R. A., com um abraço.)         

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