13.1.21

Diário de Bordos - Lisboa, 13-01-2021

Planos para o lanche. Que fazer depois de um soberbo almoço com uma senhora que foi uma das minhas estrelas da blogosfera (e espero volte a ser)? A ideia original era voltar para casa, mas a de um café e um pastel de nata na Versailles intrometeu-se; ao lado da Versailles fica o senhor Tavares, que vende quanto a mim o melhor café de Lisboa; na Versailles chateiam-me por causa da máscara, venho-me embora, vou à Flor do Chaimite onde compro duzentos e cinquenta gramas de café de Timor, um pacote de queijadas de Sintra - Casa do Preto - e uma mini-garrafa de licor de castanha assada. Não gosto de castanha assada, mas talvez o licor seja bom. Se nos ativermos apenas ao que já sabemos nunca saberemos nada. No caminho paro para ver um amigo que não conheço e gostava de conhecer, mas tem a loja fechada. Penso na Air Europa, um prodígio de ineficiência. penso no que esta bicicleta (a de cidade) é confortável, comparada com a outra (a de estrada), de como são ambas boas e belas, de como é uma estupidez comprar meia dúzia de queijadas de Sintra...

...das quais já comi cinco e estou enjoado até ao dedo grande do pé. O licor não é mau nem bom, antes pelo contrário, mas não deixa de ser curioso e oscila entre o mau e o bom até que no fim o ponteiro cai para o lado do bom e ali fica, no meio da música que vem do canal Stingray (fica ao lado do Mezzo e é bastante bom também, um bocadinho mais moderno). Hoje começa outro confinamento, eu continuo sem poder ir para Palma, o mundo continua a rodar como se eu não existisse e a única dúvida agora é saber quando me vai passar o enjoo das queijadas. Magna quaestio.

Versailles, Flor de Chaimite, café de Timor, licor de castanha assada, bicicleta Coluer a rolar por este fim de tarde em que a luz me aparece insultuosa, gozona, de tão bela: isto podia ser uma declaração de amor a Lisboa. É. A cidade passa os dias a gozar comigo e a dar-me tampas e eu passo-os a dizer-lhe que a amo e a ameaçá-la: «Olha que não é a primeira vez que te deixo, não é a primeira vez que deixo uma mulher que amo». Ela ri-se, inunda-me com esta luz, com o cheiro da Flor de Chaimite, com a perspectiva da mistura de licor de castanha assada com queijadas da Casa do Preto, faz-me uma festa nos olhos com a vista de algumas ruas (não penso nos pavimentos: amar alguém é amar-lhe os defeitos. As qualidades qualquer ama) e pronto, lá estou eu caído de novo, pelo beiço, pela alma, pelos olhos.

E pela boca, claro: experimentem ir ao restaurante Luzboa, ali para os lados da Gulbenkian; ou às Zebras do Combro - isto para mencionar apenas duas descobertas recentes. São uma maravilha, qualquer deles, em estilos diferentes. Estão ambos adequados ao sítio onde estão, o Luzboa mais para o moderno, o Zebras mais tradicional. Esta cidade prende-nos pelos olhos, pela boca, pelos sentidos todos e nós deixamo-nos levar, como um cego por uma vadia que o vai roubar e está todo contente, apesar de o saber.

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