Ontem tranquei a porta do camarote e hoje vim dormir para o Shrimpy's, que tem um quarto livre duas noites. Aproveitei e aluguei-lhe um carro - tem duas trotinetes a dez euros por dia mas ou nenhuma delas funciona ou ele não sabe fazê-las funcionar. O carro é uma merda e custa o mesmo do que um carro de aluguer normal, mas tem uma vantagem: é antigo e não apita se eu não puser o cinto de segurança. Além disso, é pequeno, fácil de estacionar. Hoje à noite vai levar-me ao indiano de Cupecoy, que era óptimo em Abril deste ano e com sorte ainda o será. [Está fechado. Vou ao Shiv Shakti em Ph'burg. Preciso de comida picante. Agressão por agressão, antes uma escolhida por mim.]
Tenho dois dias de «férias» pela proa. Férias vai entre aspas. Há trabalho para fazer, mas como a RN quer poupar dois dias de salário propôs-me férias. «Propôs-me» também devia estar entre aspas mas a verdade é que eu aceitei sem pestanejar. Tinha pensado ir dar uma volta pela ilha e não fui. Preferi entrevistar uma candidata a chef porque quero criar um grupo de pessoas que possa chamar em caso de necessidade. Isto, claro, para o caso de continuar a trabalhar para a RN, coisa de que não estou de todo seguro. Quando penso no armador de sonho que tive em Abril e no que agora me saiu na rifa fico estarrecido: tal como a cabeça da jovem chef que me envenena os dias - ou envenenou, até hoje - a vida é uma moeda que tentamos equilibrar na vertical e ora cai para um lado ora para o outro, sem que nós saibamos porquê.
De maneira aqui estou, no Bistrot de la Mer que era aonde nos encontrávamos, o A. e eu, a primeira vez que vim a esta ilha, em 2010. A. é um capitão filipino, um tipo adorável com quem ainda hoje me correspondo, de vez em quando. Hoje lembrei-me dele, porque escrevi para uma agência de charter nas Filipinas a saber se precisam de um skipper experiente, responsável e honesto. Não lhes disse a idade: poderão vê-la no CV. Até aos sessenta, sessenta e cinco a idade era uma vantagem. Agora não é. É um handicap. Talvez seja altura de começar a dedicar-me a outra actividade. Não quero imaginar o meu futuro ligado a empresas como a RN.
A menos que consiga mudar alguma coisa. Sem esperança a megalomania não é nada.
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ADENDA
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Vim por Cupecoy, o lado ocidental da laguna. O trajecto é muito mais longo mas tem várias vantagens: em primeiro lugar, não tem engarrafamentos - ou tem menos; em segundo, permitiu-me ver que o Spices of India está efectivamente fechado (e que não é em Cupecoy, mas em Maho); em terceiro, fiquei a saber que o indiano cujo nome nunca recordo está fechado para obras; last but not least, permitiu-me ficar no Bombay Bites, porque não me apetecia nada guiar até Philipsburg, cidade de que não sou grande fã nem de dia. Além disso, aqui em Simpson Bay estou perto do Lagoonies, aonde não tarda irei beber um rhum punch (e acessoriamente buscar as injecções que lá deixei).
O kolhapuri do Shiv Shakti é incomparavelmente melhor do que este mas não estou arrependido. Estar perto do Lagoonies é como estar perto do Papa em Roma, suponho. E a ideia de fazer esta estrada, ida e volta, só porque me apetece um caril... e estacionar em Ph'burg... e passar por todas aquelas lojas... Ná. Estou melhor aqui. A comida não é grande coisa mas o homem que serve à mesa é simpático, o restaurante está praticamente vazio porque é cedo e eu estou pronto a ir ao meu rhum punch favorito em St. Martin. As feridas causadas pela M. começam a pensar que um dia terão de sarar. E eu a pensar que não tarda voltarei à minha condição de não-fumador.
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Não consigo impedir-me de pensar na outra vez que tive de trancar o camarote. Um dos tripulantes era alcoólico, o maior filho da puta que a humanidade produziu, mas era inofensivo. O outro era um criminoso que se passeava a bordo de faca com o cabo virado para baixo. Mas não havia insultos nem agressões verbais. Não havia nada. Cheguei a Acapulco, eles sairam e eu disse aos guardas da marina para não os deixarem entrar. Passaram a noite na rua. No dia seguinte o brasileiro - o gajo da faca - fez queixa ao capitão do porto. Este ordenou-me que lhe pagasse o repatriamento, deixei o inglês alcoólico voltar para bordo e continuámos a viagem até Cabo San José aonde o canalha arranjou maneira de me desembarcar. Mas pronto, a coisa ficou assim. Não havia insultos permanentes. Não havia manifestações de ódio completamente injustificadas. Não havia loucura. É mais fácil lidar com a maldade. Esta pelo menos é racional. A loucura não, por definição.
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RE-ADENDA
Estou no Lagoonies, sentado à mesa aonde estava a da Marilyn Monroe em cuja boca pus o copo de não sei quê que agora serve de epígrafe fotográfica ao DV. Tão pouco estou seguro de que a mesa estava aqui. Creio que sim, mas isto não é a memória a funcionar. É outra coisa qualquer. Foi no Lagoonies, aonde vim completamente por acaso, que comecei a gostar de St. Martin. Nessa altura vivia em Antigua (pronuncia-se Antiga, se por acaso) e vinha frequentemente aqui comprar peças para a empresa para a qual trabalhava. Não gostava nada disto até que um dia tropecei sem querer e caí no Lagoonies. Ao balcão estava uma brasileira que se fosse actriz estaria ao nível de uma Jacqueline Bisset ou Romy Schneider ou assim. As mesas estavam vazias: os clientes, todos homens, sentavam-se ao balcão. Não me lembro dos pormenores. Desse dia só retive que comecei a gostar de vir às compras a Colebay. Ainda hoje gosto, apesar de a brasileira há muito ter partido, não sei para onde.
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RE-RE-ADENDA
A caminho do Shrimpy's, a crew house que me alberga num quarto de aproximadamente cinco metros quadrados, tropecei e caí no JM Beer, subtil jeu de mots, cuja escolha de runs é limitada. Só tem um decente, um Boulogne da Guadeloupe, assim assim, demasiado francês para o meu gosto. Shrimpy é a alcunha do senhor. Tem a crew house (um albergue para marinheiros, se por acaso) uma lavandaria - muito mais cara do que a da minha querida Marleta - aluga um automóvel, uma scooter (ao mesmo preço do que o carro), uma bicicleta triciclo e duas trotinetas que não funcionam. A alcunha vem-lhe de ser muito magro. Ou melhor: ter sido. Hoje continua magro, excepto na descomunal barriga. Começa pouco abaixo do queixo e acaba pouco acima das virilhas. O resto, o que sobra, é magro. Shrimpy - Michael, de seu nome - é uma daquelas personagens do St. Martin de sempre. Conheci-o graças ao J. e ao Q., ibidem. Faz-me lembrar uma caricatura do Brando de Apocalypse Now, feita por um artista vesgo e sem talento. Hoje vi-o de pé, pela primeira vez. Foi experimentar as trotinetas (a minha primeira escolha, antes do carro). Confirmou que não funcionavam, recusou fazer-me um desconto no veículo, pediu à empregada que nos trouxesse a respectiva chave e sentou-se na cadeira que lhe serve - imagino - de muleta para a vida e para o ventre. Se Dickens tivesse vivido nos trópicos Michael seria uma personagem recorrente dos seus romances, uma espécie de Scrooge gordo, caricatural, disforme e alapado à cadeira - cujos conceptores de resto merecem o Nobel da engenharia mobiliária, no dia em que existir.
No JM Beer bebo o último rum do dia e ponho em dia as palavras. Tout est bien qui finit bien, dizem os franceses. Não tenho a certeza mas falta-me energia para a ter. Se amanhã acordar depois das sete poderei dizer, isso sim, tout est bien qui commence tard.
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