4.1.26

Diário de Bordos - Cove Bay, Anguilla, 03-01-2026

A rapariga passou a semana toda descompensada, excepto à frente dos clientes e salvo raras ocasiões quando estávamos os dois sozinhos. Ocasiões essas em que se mostrava simpática, culta e bem-educada. Lamentavelmente, mal a moeda caía para o outro lado - e eu nunca sabia o que a faria cair,  era aleatório - transformava-se numa odiosa máquina de odiar. Uma bruxa capaz de me pôr fora de mim em minutos. Fui-me abaixo várias vezes. Já tive a minha dose de borderlines (nesta a OCD também contribuía para a festa).

Amanhã acaba. Tenho de arranjar um sítio para dormir mas com a gorja que recebi dos clientes e o que a empresa me deve vou aguentar-me.

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Uma das muitas coisas de que gosto nos americanos é isto das gorjas: quando gostam do nosso trabalho não se limitam a palmadinhas ns costas ou a palavras cheias de gratidão. Mostram-no levando a mão ao bolso e tirando-a generosamente cheia.

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Hoje recorri aos serviços de um agente para as clearances. Foi a primeira vez mas está longe de ser a última. Por sessenta dólares - pagos pelo cliente, como tudo o mais - poupei horas numa fila para falar com funcionários mal-encarados (isto é uma generalização. Aqui em Anguilla as pessoas são de uma notável simpatia). E fiquei a saber uma coisa impressionante: a clearance de saída é válida por vinte quatro horas. Isto é: depois de estar tudo feito, tem-se um dia exacto para se sair. É como nos parques de estacionamento mas um pouco alargado. Acontece que Anguilla cobra uma taxa turística de duzentos dólares por dia, mas esse dia é de calendário: se eu chegar às onze da noite e me for embora à uma da manhã pago dois dias de taxa turística. Como essa taxa custa duzentos dólares por dia a coisa fica preta, por assim dizer.

Que fazer? Fácil: fazes a clearance de saída para hoje e como aquilo é válido vinte quatro horas sais amanhã. Adoro a burocracia e a cabeça de quem a faz. Deve ter muitos buracos e túneis a ligá-los. 

Acresce que quem pagou para eu aprender isto foi o C. Ao todo, a coisa ficou-lhe em quase quatrocentos dólares - trezentos e noventa, para ser preciso. Por mim, aprecio imenso. É por essas e por outras que Cove Bay está vazia cada vez que aqui venho (são poucas) e que hoje a companhia eram os dois botes do Bezos e ou o MALTESE FALCON ou o BLACK PEARL, um bocadinho mais longe.

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O Trump foi-se ao Maduro e a FAA proibiu os aviões americanos de voar. Resultado: não há quartos em SXM, nome com que os íntimos designam carinhosamente a ilha de Sint Maarten ou Saint Martin, consoante. Como vou desembarcar deste asilo flutuante ando a ver se arranjo um lugar para dormir a um preço que me deixe um pouco de gorja, mais vocacionada para rhum punch do que para quartos de hotel.


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Não prometo responder a todos os comentários, mas prometo que fico grato por todos.