Não gosto muito da expressão "conversa de chacha". Prefiro "small talk". É mais respeitador, não é?, apesar de ser a mesma coisa. Isto é, não gosto de small talk, não tenho paciência para chachadas, para falar do tempo - excepto em questões técnicas, claro - ou da vizinha. Com quem é que ela dorme? Onde é que compra a roupa? Que diz ela dos outros vizinhos? (Enfim, depende da copa do soutien da senhora e de quão facilmente ele se desapertaria, se ela deixasse. Deixaria de ser small talk, eu sei, mas isso é outra história.) Sou muito mau socialmente. Nas grandes reuniões sento-me a um canto e bebo muito. Primeiro para falar e depois para calar-me. Da conversa de copos passo direitinho ao silêncio de copos. (Ou de copas, se me permitem uma pequena digressão pela chachada.)
Tão pouco me estendo muito sobre os grandes temas: faltam-me cabeça, conhecimento e curiosidade. (Gosto de aliterações. Ajudam-me a alterar a monotonia da existência. Da da minha, quero dizer. Da dos outros nada sei.)
Por isso evito conversas de vizinhos, de política, de futebol, de literatura. (Mal sei ler, essa é que é essa. Aprendi meia dúzia de termos com os quais me engano e engano meia dúzia de papalvos quando já bebi o suficiente para falar e ainda não para me calar.)
Há uma assimetria fundamental nesta coisa da conversa de chacha: ouvir é pior do que falar. As nossas chachadas soam melhor do que as da tal vizinha apesar de a senhora...
Vá, que se lixe. Traga-me um rum, sim, por favor? O quê, acabei-lhe a garrafa? Basta abrir outra. Se não tiver do mesmo pode ser um diferente. Sou adepto de Baudelaire. Parcialmente adepto. Não me embebedo com poesia, por exemplo. Excepto se for da má, como aquela que eu escrevo. Ao fim de três estrofes tenho a cabeça a andar à roda e à quarta vomito. Esteja descansado. Prometo que não vomitarei aqui. Traga-me um rum qualquer, por favor. Se não tiver rum pode ser mezcal. Estou de bicicleta, não há risco de a polícia me mandar parar. Não sei é se conseguirei montá-la. Refiro-me à burra. Não, a vizinha não é burra. Burra é bicicleta. A vizinha é boa, muito boa. Só diz disparates, mas nada que um "boa tarde" dito a correr, "desculpe, tenho o telefone a tocar" não resolva.
O problema amanhã é o tempo. Vai chover, parece. A fiabilidade das previsões meteorológicas aumentou bastante. Já a dos comentadores políticos continua igual: são muito bons a prever o que já aconteceu. E mesmo assim às vezes enganam-se. Prefiro prever o preço da uva mijona. Acerto sempre: é barata. Já os comentadores são fala-baratos, uma contradição quando se sabe o que eles ganham. Sim, prefiro fala-baratos a fala-barato. Não sei porquê. É como small talk e chachada. Também não sei porque prefiro aquela a esta. São uns fala-barato. São fala-baratos. São fala-barato. Não soa bem. Um verbo no plural e um complemento directo no singular. Tomemos um exemplo: os liberty ships eram um navio construído nos EUA durante a Segunda Guerra Mundial. Os liberty ship eram navios, etc. Eram um tipo de navio. Uma classe de navios. Sim, eu sei, sou um fala-barato dos caros, esse rum que me serviu deve ser caríssimo. Não é? Ainda bem. Não tarda começo a falar de política. Ou das mamas da vizinha, que numa sociedade educada designaria por seios apesar de mamas ser um termo técnico. Muito desgastado pelo uso (o termo, não os ditos, que são jovens e vigorosos, suponho. Nunca lhes toquei. Nunca os vi ao vivo, sequer. A senhora é puritana. Modesta, como se dizia antigamente). As mamas são, mamas é. A importância de um artigo definido é inesperada, não acha? Como se um pequeno ladrão de esquina nos oferecesse um relógio em vez de nos roubar o Rolex que trarìamos no pulso se usássemos relógio. Como não temos ele oferece-nos um Swatch daqueles que fazem muito barulho, baratos.
Caro senhor: chegou a hora. Boa noite. É um prazer falar consigo. É como falar sozinho mas sem ninguém a assistir.
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Não prometo responder a todos os comentários, mas prometo que fico grato por todos.