Povo trombudo e mal-educado, este meu. Não percebe uma ironia, não faz um sorriso que não seja por obrigação, nem quando tem o dever de cumprimentar o faz. Hoje um dos meus tabuleiros no filtro de segurança do aeroporto foi para o tapete secundário. Tinha o chapéu - um chapéu bonito, verde, da Fábrica de Chapéus, aba larga - e o saco do material fotográfico. Em vez de despachar aquilo o homem resolveu levar o tabuleiro antes do meu, vazio, para a parte da frente do tapete, deixando-me ali especado. Voltou sem uma palavra, pegou no tabuleiro, pô-lo à minha frente, eu, naturalmente, pego no chapéu e menos esperadamente levo uma descompostura porque não devia ter tocado em nada antes de ele me dar autorização. Vá para o raio que o parta, senhor, não lhe disse então porque não sou de peixeiradas e muito menos com trogloditas. Tão pouco o digo agora, que a coisa passou ao arquivo geral e já não penso no senhor do filtro de segurança do aeroporto e penso numa entidade mais vasta, esta porra deste povo de cobardolas carrancudos que mal têm uma cabo de chupa-chupa de poder se agarram a ele como se fossem imperadores do império austro-húngaro (se fossem, provavelmente seriam bem-educados mas isso é outra história).
Eu só exerço o meu direito à má criação - ou melhor, à rispidez - quando vejo erros de gramática daqueles imperdoáveis e de origens imperdoáveis. Hoje foi uma vírgula entre o sujeito e o predicado num convite para a apresentação de um livro! Com franqueza! Isso faz-se? Uma livraria (ou o editor, não sei quem redigiu aquilo) a dar erros de palmatória? E ainda há quem se admire da facilidade com que as nossas "elites" (aspas porque é irónico) adoptaram o AO90...
Sou um rapazinho bem-educado, mas tenho pouca tolerância para o excesso de vírgulas que se vê hoje em dia nos nossos textos. E menos ainda quando as pôem nos sítios errados.
Ainda agora acaba de dar meio-dia (toque imaginário, estou no avião para a minha neta) e já para aí vai uma série de incidentes. Vá lá que a miúda do bar do aeroporto era simpática e sorridente e riu-se e respondeu quando eu lhe disse uma piada. Foi entre o incidente no filtro e o da leitura do convite, de maneira não posso queixar-me muito, faço-o apenas para passar o tempo, a minha vizinha é gorda, antipática e adormeceu com um filme no telefone que pousou na mesa mas eu não olho, aquilo não tem som e ando com pouca paciência para filmes, já ler tudo o que tenho de ler (diferente de "para ler") é uma seca para a qual me preparo em Genebra, lá pelo menos tenho calma e não tenho tentações como a pastelaria Riviera, por exemplo.
As duas senhoras ao meu lado (estou na janela mas nem assim adormeço) são gordas e as duas da fila da frente também. Estamos a americanizarmo-nos, que desespero.
Uma lata de cerveja Moretti custa no avião seis euros e noventa e cinco cêntimos. Depois vendem produtos a "menos cem euros do que nas lojas físicas", aspas porque cito verbatim. O sacana do grego bem podia ir fazer companhia ao troglodita da segurança.
Os brincos da senhora do lado são feios. Pelo menos o que eu vejo, não sei se ela é adepta daquela opção estética de usar brincos diferentes, uma vez conheci uma senhora assim. Duas, aliás e este domingo vou ver uma delas, vai ser dia de santa fondue e ela é convidada por defeito, é a maior fã das minha receita, sem fécula. Não tenho opinião formada sobre essa escolha de brincos diferentes. Desde que sejam bonitos cada uma usa o que quer. Já nos homens é diferente: uma pequena argola de ouro na orelha esquerda a indicar que se passou o Horn à vela é recomendável. Fora isso, não. Ainda falta uma hora para chegar e vou mandar o grego para o diabo, outra vez. Duas cervejas pelo preço de um almoço. Bom, pode considerar-se, com legitimidade científica, que duas cervejas são uma refeição. E além disso o preço é seis euros e oitenta e cinco cêntimos, não noventa e cinco. Volta, Psoriadis (?), estás perdoado. Verdade seja dita que me indifere bastante aonde cada um pendura o que bem quer e lhe apetece. Uma vez saiu-me na rifa uma senhora com uma argola no bico do seio, não me lembro se no esquerdo se no direito ou mesmo se nos dois. Não disse nada. Limitei-me a pensar que ninguém me obrigara a estar ali e que seria pouco provável que voltasse a estar, como talvez tenha acontecido, não me lembro bem, só para que se veja o pouco que ligo às argolas e assim, para além de achar aquilo feio e desconfortável.
Expliquei ao criado do avião que deviam aplicar às cervejas o mesmo desconto que aplicam aos perfumes. Nasci para exprimir os meus pontos de vista, sempre bem fundados em factos sólidos e não "políticos" como os do nosso ex-presidente, que de passagem se diga bem podia ir para o inferno também, pelo menos enquanto foi presidente. Agora é-me indiferente, tanto me faz que diga disparates ou que os faça.
Continua a faltar uma hora para chegar. Mudam os aviões, os donos deles, os destinos ou as partidas mas esta coisa de o tempo que falta não mudar permanece igual. Falta sempre a mesma quantidade de tempo desde a última vez que se olhou para o relógio. Pode a cerveja estar quase vazia quando há pouco estava cheia; pode faltar menos quilómetros; podem os minutos que se arredondaram ser mais, o tempo até estar no autocarro para casa da S. é sempre o mesmo (correctamente seria: até as rodas do trem de aterragem tocarem no tarmac. Nem sempre voo para os braços minúsculos de uma neta recém-nascida. Não faz mal. Estou cada vez mais tolerante).
Além de um brinco feio, do excesso de peso, de cabelos pintados e outras características, a vizinha tem uma argola na narina. Ainda não a tinha visto. Já do meu lado direito a paisagem é uniforme; cirrustratus e mais cirrustratus para eu não pensar que vou ter sol em Genebra. Estamos em Março, que diabo! O dia do Verão ainda não chegou.
"We'll be landing soon" é a frase mais bonita que oiço num avião.
Aterramos e uma parte do avião bate palmas. Nem sempre somos façanhudos tal como de resto nem sempre somos matarruanes. Só às vezes.
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Não prometo responder a todos os comentários, mas prometo que fico grato por todos.