25.4.26

Diário de Bordos - Braga, Minho, Portugal, 25-04-2026

É vinte e cinco de Abril e a Centésima Página está fechada. Uma desgraça nunca vem só. Corro porém o risco de ser mal interpretado.

O vinte e cinco de Abril não foi uma desgraça. (Aliás, é pena ter sido em setenta e quatro e não nos anos sessenta, ou cinquenta mas isso é outra história.) Prefiro de longe viver num regime democrático, por imperfeitos que sejam a democracia ou o regime. Isso não se discute sequer. A desgraça do vinte e cinco de Abril, para mim, são estas manifestações de gregarismo. Um senhor ao microfone grita «Abril sempre!» e cem vozes (mais ou menos, para menos) respondem «Fascismo nunca mais!» Antes disso falou de uma série de coisas que só existem na cabeça dele (e se calhar nas do rebanho) e que o «vinte e cinco de Abril» dele se encarrega de desmentir todos os dias. «Direito à habitação»? Sim, se for em casa dos pais; «trabalho estável»? Sim, no estrangeiro - aonde a legislação liberal é dez vezes mais flexível do que a portuguesa, de resto; «salários dignos»? Sim, para o Paquistão e para o Bangla Desh os nossos salários são de uma dignidade enternecedora. E ver esta gente de cravo vermelho à lapela, na mão, na orelha? Antigamente usavam-se cruzes, hoje é cravos. A função é a mesma.

O Homem não é um animal racional. É um animal simbólico, mitológico. Vive de símbolos e de mitos, com algumas ilhas racionais aqui e ali, espalhadas como árvores numa savana. Não deixa contudo de ser doloroso confirmá-lo num dia como este, cheio de sol, calor e gente na rua. De Braga só conheço a supra-mencionada livraria Centésima Página e o glorioso almoço de hoje ajudou a mitigar os gritos irracionais do senhor, rodeado de bandeiras da CGTP. Eram mais bandeiras do que ouvintes, diria eu se quisesse dar um colorido simbólico ao texto. Não quero. Não eram.

Esqueçamos os mitos e passemos à realidade. O almoço foi objectivamente glorioso. O restaurante chama-se A Livraria. Pela primeira vez a norte do Porto encontro um restaurante que me enche as medidas, que está ao nível do Tamuge de Mértola, que é excelente desde o início - o nome - até ao fim - a conta. Passando pela decoração, pelo serviço, pela simpatia do pessoal, pela qualidade de tudo - entradas, principais, vinhos, sobremesas, aguardentes. Tudo naquela casa é um cântico à Qualidade, assim mesmo em caixa alta. Incluindo os guardanapos, que são de pano. Peixinhos da horta, costeletinhas de porco preto, filetes de polvo e de pescada respectivamente acompanhados por arrozes de feijão e de espigos, mousse de chocolate, rabanadas, aguardentes - tudo isto no superlativo. Superlativo mais, se o houver. (Há.) Venham mais cinco.

Tudo isto por quarenta e cinco euros por boca, com uma ligeira (tosse) desigualdade (tosse) na partilha da conta (tosse). Há uma dúzia de restaurantes neste clube pelo mundo, para mim: Tamuge em Mértola, Solar do Moinho de Vento no Porto, La Bodeguiya em La Linea, Chez Jeannot em Paris, Gustar em Palma, Tentações de Goa em Lisboa... Há mais? Há, claro. O meu mundo é pequeno e além disso faltarão alguns que agora me fogem da memória gustativa. Mas enfim, isto chega. José Quitério diria que A Livraria o levou ao céu e eu subscrevo.

Depois do almoço os meus companheiros foram ver o recém inaugurado Muzeu. Eu refugiei-me na minha habitual forma de turistar: enfiar-me num café e esperar que a cidade passe por mim. Passa, mas um bocadinho longe e de qualquer forma este post já vai longo e o senhor das bandeiras encarnadas agora ouve-se porque entretanto eles voltaram e fomos para a esplanada e eu só penso no Sol, no calor que ele trouxe e no mar que vem junto e para o qual eu irei não tarda. 

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