17.4.26

Somatizar, história curta sobre os benefícios comparados do gesto e da palavra

Somatizo mortalmente, dizia o doente na cama do hospital a quem de direito. Quem de direito não o ouvia: tinha mais que fazer do que ouvir pacientes dizer banalidades básicas. Alguém somatiza à vida? Alguém se sente menos morto ou menos vivo ou menos desmaiado ou menos assim-assim só porque meia dúzia de neurónios decidem mandar passear as suas preocupações? Ninguém, claro. Antonella, uma enfermeira italiana que um amor deslocalizado atraiu ao nosso país ouviu o senhor mas não percebeu bem o que ele dizia. Aproximou-se e debruçou-se; os seios - tinha-os grandes (e rijos porque era jovem) - tocaram a testa do homem - ateu, velho, via mal. Confundiu a enfermeira com Deus, o verdadeiro mas como delirava não pensou que o Senhor não tem mamas. Quem as tem são as deusas, esclareço não vá o leitor equivocar-se. Todas? Não. Só algumas. As que as partilham. As que as não guardam só para elas ou para o homem que amam. As que tocam com elas na testa de um homem doente, mesmo que involuntariamente. As que são suficientemente nobres para repetir o toque quando se apercebem do seu efeito positivo no doente. As que trazem às vagas da minha memória os momentos em que são fui tocado por essas, sim, deusas. O paciente delira menos, pacificado pelo efeito conjunto de um par de mamas na testa, uma cabeleira loira a preencher-lhe o campo visual e uns lábios que lhe dizem "calma, calma". O homem acalma-se, devido ao efeito do calor de um corpo junto ao dele, um cobertor de cabelos loiros, uma voz de que ouve o som mas não percebe a fala.

É o que se faz que conta, não o que se diz.

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Não prometo responder a todos os comentários, mas prometo que fico grato por todos.