4.6.26

Diário de Bordos - autocarro de Portimão para Lisboa, 04-06-2026

O plano era simples: entrava na camionete em Portimão,  adormecia, acordava em Lisboa Sete-Rios e ia para casa da A., que esta noite me dá hospitalidade. A primeira etapa decorreu de acordo com ele. Entrei no veículo. O segundo passo parece-me que vai falhar estrondosamente. Os chauffeurs nacionais são generosos e em vez de transporte proporcionam-nos experiências. "Venha andar connosco num autocarro de corridas!' dizem-nos. E acrescentam: "Se vier no lugar número dois terá ainda a vantagem suplementar de apreciar a perícia do nosso condutor a manejar simultaneamente o acelerador, o travão e o telefone portátil. Ou seja: rentabiliza a massa extra que pagou [o dobro do que já tinha pago pelo bilhete normal]. Terá ainda ocasião de ouvir as conversas do senhor [nota: reclamar porque ele tinha o auricular e só ouvia metade]." A condução do senhor é rápida, desportiva, com travagens igualmente bruscas e - graças a Deus - frequentes. A dor na coluna voltou. Pode ser que acalme agora que entramos na autoestrada. A conversa telefónica do condutor prolonga-se e dá-me oportunidade de avaliar o largo leque de interesses do senhor. Pessoalmente estou de acordo. Antes assim do que um monomaníaco limitado. Há pouco a razão do telefonema era de ordem familiar e limitou-se a coisas como quem ia buscar a filha (resposta: a mãe), a que horas ("vê com ela") e mais duas ou três ligadas a horas de chegada a casa, jantares, etc. que infelizmente me escaparam à atenção (as dores lombares estavam a começar).

Por falar em dores: o trajecto na autoestrada parece ter um efeito calmante. Será que a segunda parte do plano terá oportunidade de se pôr em prática? [Falso alarme. Parece que não.] 

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A perspectiva de passar o Verão em terra aborrece-me sobremaneira de dois pontos de vista: a) financeiro e b) não estar em Palma. Ou melhor, três: c) o provável uso de muletas, fisioterapeutas, hospitais et al. O resto, o vasto resto, agrada-me. 

(Cont.)

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