Portugal é um país classista, clânico e que privilegia o contacto e os laços pessoais. Um e-mail, uma carta, um contacto telefónico só têm resposta se vierem de um patamar superior para um inferior. No sentido ascendente a norma é não haver resposta - a menos que haja um interesse específico, definido e claro do nível superior. Na ausência dessas condições, o subordinado torna-se naquilo a que Nietzsche chamaria untermensch. Por falta de tempo, de interesse, de educação e ou de respeito os seus pedidos de contacto com alguém de um nível de poder acima do seu são invariavelmente respondidos com silêncio. (Não aquele silêncio bonito de que tantas vezes falo, moldado pela compreensão e pela cumplicidade. É um mutismo feio, feito de desprezo, hierárquico.)
Verdade seja dita: isto não se aplica apenas à administração pública. No sector privado passa-se o mesmo. Tentem falar com o director de marketing de uma grande empresa e se não fizerem parte do clã digam-me até onde chegaram.
O clã é constituído por família, amigos, amigos de amigos (próximos), ex-colegas de faculdade, colegas de partido (desde que parte da mesma "corrente", claro). Porém, com o sector privado posso tomar duas atitudes opostas mas que paradoxalmente não se excluem: resignar-me e reclamar. Não consigo passar da telefonista ou - nos dias de sorte - da secretária? Não insisto e deixo um comentário na rede social da empresa.
No sector público é diferente. Para começar, penso que tenho direito a uma resposta. As pessoas do sector público - sejam funcionários sejam políticos - têm o dever de falar com os seus "clientes" pela razão simples de que estes não têm as possibilidades de escolha dos do sector privado. Se eu preciso de uma resposta, de uma acção, de uma informação de um vereador da minha autarquia não posso simplesmente ir pedi-la ao seu correspondente da câmara ao lado. Por outro lado, resignar-me só serve para prolongar o status quo.
Claro que este classismo e este clanismo não datam de hoje e não terminarão amanhã. Claro que ninguém me obriga a não ter jeito nenhum para fazer parte de um ou vários clãs. Ninguém me obriga a ser um teso e estar portanto na base das diferentes pirâmides que integro socialmente. Ninguém me obriga a não saber e não querer aprender a lamber botas. Ninguém me obriga a viver em Portugal: podia ser suíço, se tivesse querido. Ou continuado no Panamá, país em que as comunicações ascendentes se resolvem simplesmente, com dólares. Ou em muitos outros países. Mas quero viver aqui; e ninguém me obriga, igualmente, a baixar os braços ou calar-me.
Talvez um dia os übermensch (não me refiro aos do velho Frederico) comecem a encontrar tempo, interesse, educação ou respeito para responder aos mais unter. Se não for amanhã, será depois de amanhã.
Basta resignarmo-nos menos e reclamar mais.
ADENDA
Acresce que em Portugal o telefone é visto como um meio de poder e não como aquilo que é, um utensílio de trabalho. Em algumas cidades que conheço, uma pessoa precisa de falar com um determinado departamento da, suponhamos, câmara municipal. Telefona e o seu correspondente não pode atender. A secretária ou a recepcionista ou a telefonista ou seja quem for diz-lhe:
- Deixe-me o seu número de telefone e o senhor ou senhora X vão ligar-lhe quando puderem.
Uma pessoa dá o número e espera. Sabe que a entidade com quem necessita de falar lhe ligará em tempo útil.
No nosso país isto não acontece. Tem de se voltar a ligar até que o acaso lhe permita apanhar o seu interlocutor disponível. (O mais provável é ele, interlocutor, dizer-lhe para enviar um e-mail, mas isso é outra história.) É como jogar às flechas num pub, com uma caneca de cerveja numa mão e duas ou três no buxo.
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