8.7.26

Manetas

"Tenho tudo aquilo de que um homem precisa menos um par de mamas à mão." Um tempo. "Mas como já não tenho mãos esse problema não me afecta muito. Aliás, deixou de ser um problema. Tenho tudo aquilo de que um homem precisa."

Manetas perdera as duas mãos num acidente de trabalho cujos contornos (como dizem os jornalistas) eram obscuros. No coto do antebraço direito fixou um gancho telescópico com um alcance de dois metros. Permitia-lhe apanhar copos e agarrar-se a qualquer coisa quando perdia o equilíbrio. No do esquerdo pôs um aro com uma rede por baixo, um cesto do basketball em ponto pequeno. Nos cafés e bares - de que era frequentador permanente - só pedia bebidas cujo copo coubesse no cesto. Para comer desenvolvera uma estratégia demasiado complexa para ser explicada agora. Envolvia uma escolha de menus, o uso do lado interno dos cotovelos para os talheres e da boca para lá os colocar. Habituara-se bem à falta de mãos e quando estava grosso - todos os dias desde que acabava o almoço até adormecer - dizia a toda a gente que nada melhor do que perder as duas mãos lhe tinha acontecido na sua curta vida. (Tem cinquenta e dois anos.)

"Percebes? Ter mãos e não ter mamas é pior do que não as ter porque não as tens. Pelo menos tens uma desculpa."

Chamávamos-lhe Manetas porque Mametas o irrita e ele não merece. No fundo é bom homem e de manhã até tem conversa: antes da invalidez tinha sido professor de literatura medieval. Ainda passou alguns anos a tentar reintegrar a faculdade aonde ensinava mas como foi dado inválido a cem por cento pela burocracia vigente não conseguiu. Agora gasta o dinheiro da reforma, da pensão de invalidez e da indemnização da empresa culpada (desenha aspas no ar) em álcool, cigarros e livros que não consegue ler. Recusa terminantemente uma prótese, dessas modernas, sofisticadas. 

(Cont.)

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