A esperança é uma treta, toda a gente sabe. É um ópio enganador. Não digo que devia ser proibida mas pelo menos vir com anúncios de cautela como os dos maços de cigarros. O pior é quando pensamos que já não temos pinga dela a bordo e se abre uma fresta numa janela e puff, vêmo-la a sair e temos de reconhecer que éramos nós quem a trazia, calada e escondida, pronta a crescer. Fica-se contente, claro. Um contentamento ambíguo, semelhante ao do alcoólico que, no meio do Atlântico, vê a ultima gota de álcool desaparecer porque se partiu a garrafa aonde estava e apercebe-se de que vai mesmo ter de ficar muitos dias sem beber.
Só um idiota tem esperança em Portugal. Isto nunca muda e quando muda é demasiado tarde e a reboque e mais vale agradecer esta frincha por onde escapa mais uma uma gota de esperança que nem sequer sabia que ainda tinha e agradecer aos incêndios que foi o que abriu a greta, salvo seja, não desfazendo.
O dogma acaba sempre por ganhar, o herege de ontem é o negacionista de hoje, o demo também mudou de nome e agora tem montes de pseudónimos mas continua sempre à mão; como deus, de resto: só desapareceu o singular. No plural continua viçoso e saudável, se bem as cópias sejam mais pequenas.
"Para ser realmente contemporáneo hay que ser ligeramente inactual", diz Vila-Matas no Canon de cámara oscura. Não é ligeiramente, Enrique. É medieval. Escolástico. Dogmático. E quem não o for está fora de jogo, fora do tempo, porque para a actualidade só há hoje e amanhã. Esqueceu que tempo tem três componentes e como só conhece dois engana-se quando os quer analisar. Engana-se no presente e engana-se no futuro.
Não sabe sequer que está simplesmente a reviver o que já foi. Pensa que só porque lhe mudou os nomes o passado deixou de existir. Esperar seja o que for desta actualidade é como querer ver a Virgem nua em cima da oliveira.
Há que esperar a próxima.
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Não prometo responder a todos os comentários, mas prometo que fico grato por todos.