13.9.26

Cartas

Querida T.

Acabo de passar à frente do Lizarran onde íamos jantar quando não queríamos jantar fora. Agora chama-se La Botana e nunca lá pus nem as alpergatas, quanto mais as botas. Depois vim ao Gibson. A mesa em que escrevia estava livre (apanhei-a por uma unha negra) e bebo uma cerveja enquanto "te" escrevo. Aspas porque é absolutamente improvável que um dia leias esta carta.

A nossa Palma quase desapareceu. Não foi só o Lizarran. A Ca na Chinchila fechou, levada pela enxurrada da pandemia. O Antiquari mudou de proprietário. O F. fartou-se e vendeu aquilo. Não resta nada. Felizmente fiz algumas fotografias. Do teu grupo de músicos só vejo o Diego, muito de vez em quando. Às vezes, essas vezes permitem-me ouvi-lo, se por acaso calha ele estar a tocar numa rua. Ainda toca bem. O Narada zangou-se comigo, não sei porquê e agora não me fala. Enfim, não me falava. Não me cruzo com ele há mais de um ano. A Mariana foi viver para Palmanova. Essa não a vejo há duas eternidades, pelo menos.

Tudo muda, não é? O meu amor por ti mudou, claro. Já lá vai década e meia que me deixaste, podre de razão. No outro dia vi uma fotografia de ti que fiz em Londres. Não sei se a apaguei. Ando a dar a volta às fotografias, a pôr o passado em ordem.

Não que queira morrer, repara. Quero só estar preparado e como este sacana deste passado é longo e não me deixa prefiro começar agora. Dir-me-ás "devias ter feito isso quando o passado ainda era presente". E eu respondo: "sim". 

Devia ter-te dito "sim" mais vezes.

Teu,

Luís

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