22.4.04

O futuro radioso

Ao som de "Uma Gaivota Voava, Voava" um comunista caía de uma janela do 5º andar. Quando chegou ao terceiro andar gritou para uma senhora que aflita o via cair "Até aqui está tudo bem. O futuro é radioso". No segundo andar levantou o punho e exortou os camaradas a construirem um homem novo. No chão estatelou-se, claro, e deixou uma grande mancha que de vermelha se transformou, rapidamente, em castanha. "O futuro é realmente radioso", pensaram os abutres, enquanto debicavam furiosamente o corpo do senhor. Dostoievski e Zweig jogavam à roleta num casino chamado Amok. O que ganhasse levava a mão de uma desconhecida; o que perdesse ia ao Porto passar uma semana.

No Céu, Deus decidiu reestructurar e reorientar as operações. "Estamos a precisar de um face-lift, focalizar as nossas opções no cliente, de reestrutar o organigrama, que é um pouco complicado, e pouco flexível. Compreende, fomos criados há muito tempo, e desde aí sofremos poucas mudanças. Há que adaptar o modelo, sem o pôr fundamentalmente em causa, aos tempos modernos", explicou a uma jornalista que o foi entrevistar. Assim, os procedimentos foram simplificados: o Purgatório começou a acolher todos os mortos que lá chegam; e só dal eram orientados ou para o Céu ou para o Inferno. Quem não cabe bem nem numa categoria nem noutra vem para Portugal. E as pessoas amáveis de que fala, e de quem estava farto, D. H. Lawrence, porque são uma mentira, começam, a partir de agora, a ir para o Inferno, condenados a ouvir Roberto Carlos.

Lenine, Staline, Mao, Pol Pot e Hitler criam um concurso aberto apenas a governantes com mais de um milhão de mortos provados. Quem ganhar leva uma assinatura vitalícia do Monde Diplomatique e é obrigado a ouvir todos os programas do Herman - sem poder, contudo, mandá-lo para um Goulag ou para uma câmara de gaz.