27.8.04

Um dia escreveu uma carta aos filhos:

"Já morri uma vez, ou duas. Não é difícil: é como tropeçar numa rua escura, à noite. Agora preparo-me para o fazer, de novo. Não se preocupem: voltarei, concerteza. É só uma interrupção, uma quebra nesta queda sem fim que começou quando nasci e não tem maneira de acabar. Costumo dizer que morri uma vez ou duas, mas não é verdade: nunca morri, porque nunca vivi: a minha vida tem sido uma sucessão de vidas, e mortes, adiadas. Espero que a vossa não seja assim. Fiz tudo o que podia para que tivésseis direito a uma morte decente: a única condição, salvo desastre, tremor de terra ou genocídio, é ter uma vida decente. Uma vida, sim, não façam essa cara. E não façam essa cara porque eu me vou embora outra vez. Não façam cara nenhuma, de resto. Morrer é um pouco como fazer vela: o mundo exterior deixa de existir. Ou como fazer amor: nós deixamos de existir; ou como tudo o que se queira. Morrer é bom, e é o que vou fazer daqui a pouco.
Foi nesta casa que viveram os meus pais, foi nesta casa que vivi uma grande parte da minha vida. Um grande casarão em pleno centro da cidade. No verão sentíamos o cheiro das sardinhas assadas da feira, mesmo em frente. Foi também aqui que vi o meu primeiro morto: um homem na linha férrea, atropelado pelo comboio. Já estava coberto por um lençol: parecia um filete de pescada antes de ser frito. E da feira não vinha barulho nenhum, porque ainda era cedo; nem da rua por baixo da ponte do caminho de ferro. O homem jazia ao lado das linhas: quase parecia uma injustiça, dir-se-ia que o comboio se desviara para lhe passar por cima. Um pequeno grupo de pessoas juntara-se-lhe à roda, a comentar e a abanar a cabeça. Nunca soube quem era, claro; nem nunca pensei sequer muito nisso. Um homem morto, coberto por um lençol branco.
Não sei se, das vezes em que morri, terei tido direito a um lençol branco: algumas foram no mar, ou pelo menos na água; outras não. Depende do que se entenda por morrer.
Uma vez fui buscar uma criança que tinha sobrevivido três, ou cinco, dias debaixo de uma pilha de cadáveres numa igreja. Ninguém sabe quantos dias: a criança não falava. Tinha sido uma tia, apresentadora de um programa erótico na televisão suiça-francesa, que a veio buscar a Bujumbura. Não vejo televisão, quem me disse o trabalho da senhora foi um colega. Pergunto-me se ela continuou o programa, depois daquilo. Ou se a criança já fala. E se hoje lê Celan:

« …Nous allions à l'abreuvoir, Seigneur.

C'était du sang, c'était
ce que tu as répandu, Seigneur.

Ça brillait.

Ça nous jetait ton image aux yeux, Seigneur.
Yeux et bouches sont si ouverts, sont si vides, Seigneur.
Nous avons bu, Seigneur,
le sang et l'image qui était dans le sang, Seigneur.

Prie, Seigneur, nous sommes proches. »

Conviver com a morte é uma das formas de morrer. Conviver com a morte e ficar-se vivo, claro. Enfim, pouco interessa. Bastar-me-ia saber-vos imortais, saber que puderam conviver comigo estes anos todos e ser felizes. Pelo menos tiveram uma infância, isto é: tiveram pais, e irmãos, e primos, e não sabiam que não morreriam, um dia. Tão pouco sabiam que morreriam, claro: é a essa forma particular de felicidade que se chama infância. Aquela criança, por exemplo, não a terá tido. Eu não tive infância, também: descobri cedo demais o que era a traição, a mentira. E cedo comecei a morrer."


Mas não a enviou; felizmente, porque também daquela vez ressuscitou.