27.5.13

Rose

A ver, minha querida Rose, se nos entendemos. Dizes-me que perdeste metade da tua vida à procura do verdadeiro amor; e que quando o encontraste o deixaste fugir, porque não o reconheceste. Acontece muitas vezes, Rose, não devias preocupar-te tanto com isso. Até tem um nome - azar, infortúnio, não fazes ideia, Rose, da quantidade de amores que se perderam por causa do azar. Mais, aposto, dos que o que se encontraram por causa da sorte - .

Procura o falso amor, se quiseres. É mais fácil de encontrar e menos volátil; ou aprende o que é o verdadeiro amor; mas essa via parece-me arriscada. Verdadeiros amores há-os às dúzias e são todos diferentes. Mas, sobretudo, Rose, percebe: eu não tenho amor para ti, nem do verdadeiro nem do falso, nem do de à flor de pele ou daquele que vem do fundo do ventre e não sai de lá.

Nada a fazer, Rose, as coisas são como são, digo-to muitas vezes, vezes sem conta, e querer que elas sejam diferentes é infantilidade, sonho de revolucionário ou coisa de corno triste.

As coisas, as pessoas, os lugares. Não vale a pena pensares que um avião vai resolver a tua dor, não vai. Faz parte de ti, a dor, como essa pele de que tanto gosto e pela qual faria tudo menos apaixonar-me ou curar-te. São caminhos lentos, subterrâneos, tectónicos e enganas-te se pensares que um sorriso, uma carícia ou uma noite a ver estrelas os fariam mudar. Não olhes para mim assim, Rose, sabes que gosto da tua voz de saxofone, da tua pele de mesa de bilhar, dos teus olhos de rum Mount Gay, das tuas mãos de mar. Gosto de ti, muito e para sempre, mas não poderia, mesmo que o quisesse, Rose, mesmo que o quisesse, apagar-te essa dor.

Não mudas o passado, não aprenderás o que é o verdadeiro amor e não encontrarás o falso, Rose. Podes, se quiseres, passar a noite comigo, podes mesmo passar o resto da vida. Mas não me fales em amor, Rose, não me fales em ir embora para as Marquesas ou para Amsterdam cantar nos bares, não me fales em corrigir o que foi, aprender, mudar ou no cheiro da terra depois da chuva.

Não me fales de todo, Rose, limita-te a amar-me como tu sabes, começa pelos cabelos e pelos dedos dos pés ao mesmo tempo,  sabes para que servem esses intermináveis braços, não sabes, Rose? E a língua no meio, Rose, algures entre os pés e os cabelos; ama-me Rose, não me fales, estou farto de palavras, farto de sonhos, projectos, ideais ou planos. O meu futuro vai até ao teu próximo orgasmo, se quiseres; ou até ao meu, se puderes.

As palavras queimam, Rose, e eu sou uma cicatriz sem fim e sem princípio, estou-me nas tintas para a tua aprendizagem, para a tua incapacidade de reter o verdadeiro amor. Talvez não haja verdadeiro amor, já pensaste nisso, Rose? Talvez aquilo a que chamas verdadeiro amor e te fugiu por entre os dedos não passasse de um ersatz de amor, talvez todo o amor seja um ersatz de si mesmo e nós andemos aqui todos enganados, uns à procura de uma coisa outros de outra e no fundo nem uns nem outros sabem bem o que procuram pela razão, Rose, simples de que ela não existe.

Que se foda o amor, Rose; fode-me, fode quem quiseres, podes até foder-te a ti própria se quiseres. Mas não me peças mais do que eu posso dar-te: uma pila, aqui e agora; e um sorriso, amanhã de manhã. Talvez haja muitos amanhãs de manhã, e muitos sorrisos. Mas isso, Rose, só o saberemos cada noite, depois de e antes de. Uma a uma, noite a noite, manhã a manhã, sorriso a sorriso, bom dia a bom dia, olhar a olhar.

Não me peças o sol quando eu nem uma vela te posso dar; não me peças o vento, não tenho nem um sopro; não me peças a alma, nada mais tenho do que mãos, uma boca e uma pila. É o que sou, Rose, e é tudo o que sou.

E é muito mais do que devia ser.