18.6.13

Diário de Bordos - Lisboa, 18-06-2013

Lisboa é a cidade mais bonita do mundo pela razão mais ou menos simples (se bem bastante discutível) de que não há nada mais bonito do que as nossas memórias, todas; mesmo as que foram fabricadas por nós, há segundos.

Foi neste banco que não-te dei o braço, não-te beijei, não-te disse amo-te; foi naquela casa que pela primeira vez fizemos amor, ou tomámos o primeiro pequeno almoço juntos; foi debaixo desta árvore que percebi que te quero amar, te quero, te amo, te amarei.

Foi nesta livraria que; e  naquelas escadas, lembras-te? Não, não te lembras porque acabo de inventar que foi naquelas escadas que e foi nelas que nunca te disse que te amo, ou foi nelas que te acariciei pela primeira vez os seios, ou por aí fora.

Só numa cidade que conhecemos bem, na qual vivemos e que amamos se podem as memórias misturar assim, as verdadeiras e as falsas (enfim, não há falsas memórias: há as que se construíram a si próprias e sobreviveram em nós e as que nós próprios fizemos e sem as quais não sobreviveríamos nem dois minutos).  É por isso que Lisboa é a cidade mais bonita do mundo, para mim. E não por causa do café do senhor Leal, que ainda lá está, leal ao bairro e à qualidade; ou do sorriso da Sónia do Pão de Canela, que ainda se lembra de que o meu galão é gelado e o café sem açúcar (não é verdade. Também são esse sorriso e essa prestabilidade que fazem da Praça das Flores a praça mais bonita do mundo, na categoria pequenas praças).

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Preciso de mudar de telefone e vou a uma pequena loja no metro do Rossio. O senhor, um jovem sikh diz-me "não se preocupe, vai acabar por aprender" quando lhe digo que hesito porque o telefone não tem teclas, é só de toques. Compro-lho imediatamente, claro: não duvidar da inteligência de um cliente é a melhor técnica de vendas que conheço.

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Há uns anos escrevi que a melhor maneira de se viver em Lisboa é ser estrangeiro, e cada vez que cá venho confirmo essa ideia. Não saber quem é o Zé ou o António Costa ou o que havia na Avenida da República antes de haver o que agora há, e poder admirar a cidade como é hoje (e o que nela vivemos, ou não-vivemos, mas isso é outra história), resistente a tudo, mesmo a meia dúzia de Zés e Antónios e aos que se lhes seguirão