21.9.13

Diário de Bordos - Red Frog Marina, Bocas del Toro, Panamá, 20-09-2013

Como se não chegassem as maleitas dos botes agora sou eu que ando avariado. Enfim, agora é uma maneira de dizer: há duas ou três semanas, pelo menos. Hoje, finalmente, alguém se prontificou a ajudar-me. Foi a M., a empregada simpática do Kaiukos. M. é namorada de R., o empregado do Point Lava Beach Club, o outro restaurante do Red Frog Resort, do qual a Marina é parte.

R. (que me levou de carrinho de golfe do restaurante de praia para o restaurante do albergue) disse-me para dizer a M. que vinha da parte dele, e para me preparar uma mistura de limão, alho e mel. M. obedeceu, eu também, e bebi aquela mistela de um trago só. Mas depois pedi um rum, deu-me um ataque de tosse, cuspi-o todo e ela foi buscar um blister com quatro comprimidos. Disse-me com voz de quem não estava a brincar "duas agora e duas amanhã de manhã", não me cobrou o rum e eu fiquei ali um bom bocado deitado (com os sapatos a fazer de travesseiro*) até B. acabar de falar com a namorada que é japonesa e vive no Japão.

Eu acho que nós os homens temos tendência para ficar doentes de vez em quando porque é a única maneira de atrair a atenção de uma senhora e ela perceber que comê-la é a última coisa que queremos naquele momento. Ou a antepenúltima, talvez.

A verdade é que não queria atrair a atenção de ninguém. B. entretanto estava a falar com duas miúdas do hostel, por sinal bastante giras, mas eu só pensava 'já estive morto cinco dias e senti-me muito melhor do que me sinto agora". O que é indubitavelmente verdade mas não inclui todas as variáveis, etc.

De maneira vim-me embora apesar do sorriso giro de uma das miúdas e agora estou a preparar-me para acordar amanhã e tomar os comprimidos da M., não vá um sacana qualquer dum micróbio dizer-lhe que desobedeci e castigar-me.

Não gosto nada de estar doente, é uma coisa que me chateia ao mais alto ponto, quase tanto como perder o raio do telefone, como perdi hoje. Acho que ninguém gosta, na verdade, excepto claro os gajos que lhes querem fazer crer que não estão a fazer aquelas cenas todas para as comer e na verdade estão.

Eu acho uma injustiça horrível estar doente: um gajo como eu leva uma vida sã, ao ar livre e natural; não devia adoecer, e muito menos ficar assim duas ou três semanas até encontrar um empregado de mesa cuja namorada tem comprimidos encarnados e uma voz de comando à qual é impossível sonhar sequer com fugir.

E tudo isto me leva a pensar que o M., o meu, ainda não chegou e que amanhã vou ter de falar da Red Frog Marina, da qual, seja Deus louvado, gosto muito. Mas isso fica para amanhã, quando a paciência tiver regressado e a ausência da necessidade de tossir também.