22.3.14

Diário de Bordos - Red Frog Marina, Bocas del Toro, Panamá, 22-03-2014

Por vezes penso que o Artie é como aquelas namoradas que já não amamos mas que mantemos por pena, ou por falta de coragem.

É preciso começar por dizer: o que aconteceu não é propriamente uma surpresa. O barco está parado há muito tempo, tanques de gasóleo cheios. Fungos e bactérias têm ali comida para se desenvolver, reproduzir, crescer, gozar e entupir todos os filtros que encontram pelo caminho.

A primeira vez que o motor parou foi duas horas e meia depois de termos saído. Troquei o filtro do motor, e fui limpar a outra extremidade da linha de alimentação. A segunda vez fui directamente à bomba; à terceira voltei para trás. Não havia maneira de chegar a lado nenhum e a verdade é que pensei que não fosse só o fuel, talvez houvesse alguma coisa mais.

Aparentemente não há: é mesmo só o gasóleo. Agora vai ser preciso filtrar o diesel todo, limpar os tanques, limpar a linha de alimentação, trocar os filtros. É pouco provável que os injectores estejam entupidos - o último filtro é de dois mícrons e como dizia hoje um colega e amigo brasileiro, "por ali não passa nem pensamento" -.

Maldito mar. Faz pagar caro a felicidade que dá. E mais caro ainda o que de nós revela.

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Há muitos anos reatei com uma rapariga com quem tinha rompido; ela desfazia-se em lágrimas na Avenida da Liberdade, implorava-me que voltasse e eu tive pena dela.

Mas não era só pena, havia algo mais; levei anos a identificar o que era. Anos depois descobri: não se pode não amar quem nos ama daquela maneira.

Talvez o mar me ame, no fundo. E talvez me deixe, um dia.

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É sábado. Não há nada que possa fazer. Fui à praia e agora vou cozinhar um bom jantar. A única maneira de lidar com o inelutável é não lutar.

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Morreu Fernando Ribeiro e Castro. Lidei pouco com ele, meia dúzia de vezes se tanto. Poucas mortes me arrancam uma praga como a que gritei quando o soube. Há pessoas que nos marcam desde a primeira vez, pessoas que portam a bondade como outros vestem um fato de marca. Não percebo nada de roupa, nem de fatos de marca. Mas percebo de pessoas; e de bondade. É a única classe à qual sou sensível.