19.4.14

Diário de Bordos - Shelter Bay Marina, Panamá, 19-04-2014

Saí de Bocas com noventa dólares no bolso e uma firme, declarada e explícita decisão de nunca mais trabalhar para idiotas. Se tenho de trabalhar para idiotas mais vale trabalhar para mim. Convivemos melhor com a nossa idiotice do que com a alheia, talvez por a conhecermos há mais tempo.

A viagem para Shelter Bay foi chata: vinte e duas horas de motor sem piloto automático; e longa: estava ansioso por chegar, ver a Nike, extirpar este horrível ano de mim.

Chegámos às duas da tarde; às cinco tinha encontrado um trabalho. Vinte dólares à hora, apesar de ter pedido quinze. Nunca saberei ganhar dinheiro como sei gastá-lo. E quando saísse do R. viria para bordo do KARL, uma embarcação da qual posso dizer o nome porque em breve ela e a sua armadora, Nike, terão um post.

Estou a dormir no KARL, a trabalhar no T. por mais três ou quatro dias; saí do esgoto, de uma vez por todas - ou seja, até à próxima, que desejo esteja longe.

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W. tem um rabo-de-cavalo (mais a cair para o rabicho, de tão pequenno), uma papada que lhe faz do pescoço uma diagonal quase paralela ao dito rabicho e um nariz oblíquo e proeminente. Visto de lado a sua face parece um losango; de frente também.

Não simpatizamos um com o outro. Estou-lhe grato por me ter dado o trabalho em Bocas e pela boleia, e contente por não ter de o ver nem ouvir mais.

É um veterano da guerra do Vietnam e em L. - outro veterano, mas este piloto de helicópteros ("duas comissões, a segunda voluntária") - encontrou um parceiro ideal. Eu tenho pouca paciência para as conversas deles, tão pouca como eles para as minhas. Ou para o meu silêncio, mais provavelmente.

A verdade é que tenho pouca paciência para conversas de veteranos, sejam eles da guerra, do humanitário, da enfermagem ou dos moinhos de vento.

(Cont.)