6.8.14

Maude - I

Ontem fui almoçar com Maude e o seu namorado. Maude é a minha mulher. Somos casados há dezasseis anos. O rapaz é bastante mais novo do que nós. Ela tem quarenta e três e eu mais dois. Ele deve ter vinte e poucos. É pintor e expõe as obras no metro. Aparentemente foi assim que se conheceram. Maude sempre gostou de arte e de artistas. Ignoro o que a levou a casar-se com um piloto de aviões.

Gostei do rapaz. Tem o olhar mortiço e profundo dos criadores que criam e fala igualmente devagar, como se cada frase fosse um marco na sabedoria da humanidade e devesse ficar registada. Chama-se Jules, ou Julien, não me lembro bem. Tenho uma péssima memória para nomes. Talvez seja desinteresse, no fundo. Não sei.

Fomos almoçar a uma daquelas esplanadas do Campo Pequeno. Maude levava os seus óculos escuros redondos, que lhe cobrem metade da face e a tornam parecida com Janis Joplin. O rapaz ia com o uniforme de artista. Falou pouco. Eu estava com a farda de voo - tinha acabado de chegar e  achei pena trocar de roupa. Assim sempre dei ao moço mais uma razão para se rir de mim. Os artistas não gostam de fardas. Excepto as deles, claro, mas este ainda é demasiado jovem para saber que está fardado. Pensa que está vestido -.

Ele não sabe que eu sei. Maude sabe, mas apenas porque Maude sabe tudo o que eu sei. Nunca falamos nos seus amantes. Nem nas minhas, mas são muito menos do que os dela. Enfim, imagino. Não os conheço todos. Desta vez aceitei ir almoçar porque Maude comprou uma ou duas telas ao rapaz e queria que eu o conhecesse. Também conheci o músico e o actor. Imagino que tenha havido mais, mas não os encontrei. O músico era simpático. Tocava bem - no metro, claro -. Talvez tivesse sido melhor comprar um carro à Maude antes de me aparecer com a fauna completa em casa.

Há muito tempo que o amor entre Maude e mim foi substituído por uma amizade profunda, sexuada, cheia de prazer e vazia de paixão. A única condição é eu não saber. É-me indiferente que toda a gente saiba desde que eu seja mantido na ignorância.

O almoço foi agradável. O rapaz é frugal, Maude estava radiante e eu aproveitei para falar de aviões, um tema que me aborrece mais do que as horas de sono da minha primeira empregada. Jules - ou Julien? - é culto, tem conversa (se bem um pouco lenta para o meu gosto) e não estava nem demasiado à vontade nem encavacado. Enquanto falávamos, pensava que o rapaz me devia estar grato: dava-lhe uma mulher soberba e montes de razões para pensar que fazia bem em enganar-me com ela.

Sabe estar, não achas? resumiu Maude depois do almoço, já a caminho de casa.

........
Maude está sentada na borda da cama, pernas encolhidas, mamas esmagadas contra os joelhos. Pinta as unhas dos pés.

Quando acabar, vai deitar-se de costas, pernas entreabertas, pés em leque perfeito, simétricos, a arejar. Com a mão direita vai começar a masturbar-se. A mão esquerda ficará pousada no lençol, entre nós. Pouco a pouco começará a suspirar; os suspiros aumentarão de intensidade; eu deixarei o livro que estou a ler e voltar-me-ei. Ela pegar-me-á na mão direita, pô-la-á no seu ventre e dir-me-á Põe a foice em seara alheia... Ou coisa que o valha. Maude consegue erotizar a mais anódina das expressões.

Em breve as nossas mãos estarão juntas; a sua mão esquerda estará algures no meu ventre. Eu continuarei deitado de costas; Maude esmagará a minha mão contra o seu monte-de-vénus, redondo e proeminente, de pentelheira farta. Começarei a entesar-me.

... Ele está deitado de costas, pau feito a apontar para o tecto, quase vertical. Sento-me em cima dele, puxo-lhe a pila para a frente e enterro-a em mim. Aponto para o meu umbigo e digo-lhe Até aqui. Até aqui. Até aqui. Ponho as pernas por cima do peito dele. Gosto quando ele me mordisca os dedos dos pés enquanto o sinto no meu ventre. Até aqui. Já me vim uma vez. Vir-me-ei uma segunda e outra e outra.

Ele pega-me nos tornozelos,  afasta-me ligeiramente as pernas, puxa-me para a frente e para trás. Sinto-lhe os tomates nas nádegas. Sei que isso o magoa um pouco e que ele conta com essa dor para atrasar o orgasmo.

Gosto de saber que ele me olha para a pentelheira, que vê o membro enterrado em mim até aos copos, que me vê feliz como se fosse a primeira vez. Não é.  É melhor.

Diz-me "Ajuda o senhor Bispo" e eu obedeço. Com a mão direita masturbo-me de novo. Com a esquerda acaricio-me os seios. Viramo-nos de lado.

Ele gosta de acabar assim, os meus tornozelos nas mãos fechadas, para trás e para a frente e para trás e para a frente não cada vez mais depressa mas cada vez mais fundo, cada vez mais fundo, cada vez mais até aqui.

Sai depressa de mim. Não é como Jules, que gosta de se deixar ficar e de o tirar quando já está mole.

Amo-o, mas ele não sabe. Pensa que sinto por ele o que ele sente por mim: amizade.

Não é verdade. Amo-o.

(Cont.)