21.10.14

Diário de Bordos - Lisboa, 21-10-2014

Poesia e vinho na sexta, jazz no domingo, poesia e moda na segunda. Lisboa não está para quem gosta simultaneamente de arte e de descanso. Está para quem gosta de arte e de viver; e de civilização. E para quem gosta de percorrer ruas que o conhecem.

Eu gosto e acorro, apesar de também gostar de descanso e de me deitar cedo.

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Poesia e moda: a poesia é séria, a moda frívola e nunca os dois se encontrarão, como o Este e o Oeste de Rudyard Kipling?

Não sei. A frivolidade é tão séria como a seriedade, tão importante e necessária. Poucos foram os poemas bem escolhidos. Fernanda Câncio mostrou o lado seco e eficaz da inteligência; Manuel João Vieira o alegre, humorístico, leve. O bom, em suma. E mais produtivo; ou proveitoso. Mas isso é outra história. A verdade é que uma das coisas que me levou hoje ao Povo foi a dificuldade do tema. Ou seja: a sua irresistibilidade.

Dos outros pouco se salva: uma actriz não sabe que a poesia se escreve de uma forma e lê de outra, diferente; uma poeta - por sinal muito bonita, o que para o caso é irrelevante mas não desagradável - acha que a poesia deve ser profunda. O vazio é palavroso sempre e às vezes denso. De certa forma compreende-se: vazio é um dos antónimos de silêncio e este dispensa bem o excesso de palavras, a profundidade; e outros efeitos.

Declamar poesia é uma das formas de a desprezar - caso o declamador a compreenda, claro -; se não é simplesmente uma forma de incompreensão.

A poesia naïve esteve notoriamente ausente, graças a Deus.

Depois dos convidados houve um "microfone aberto": globalmente melhor do que o microfone fechado. Ao fim e ao cabo penso na noite, oiço Manuel João Vieira e penso "Que grande noite de talento". E foi. Na próxima estarei lá caído, coisa que me inquieta: já andava à espera dos domingos. Agora das segundas. E amanhã?

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Um dos poemas da noite. Descobri-o hoje, pela voz de Fernanda Câncio. Escolheu o desejo como eixo de abordagem da moda e escolheu poemas bons. Leu-os bem, se bem sem alma, sem verve, sem humor.


To Helena

Acabo de inventar um novo advérbio: helenamente
A maneira mais triste de se estar contente
a de estar mais sozinho em meio de mais gente
de mais tarde saber alguma coisa antecipadamente
Emotiva atitude de quem age friamente
inalterável forma de se ser sempre diferente
maneira mais complexa de viver mais simplesmente
de ser-se o mesmo sempre e ser surpreendente
de estar num sítio tanto mais se mais ausente
e mais ausente estar se mais presente
de mais perto se estar se mais distante
de sentir mais o frio em tempo quente
O modo mais saudável de se estar doente
de se ser verdadeiro e revelar-se que se mente
de mentir muito verdadeiramente
de dizer a verdade falsamente
de se mostrar profundo superficialmente
de ser-se o mais real sendo aparente
de menos agredir mais agressivamente
de ser-se singular se mais corrente
e mais contraditório quanto mais coerente
A via enviesada para ir-se em frente
a treda actuação de quem actua lealmente
e é tão impassível como comovente
O modo mais precário de ser mais permanente
de tentar tanto mais quanto menos se tente
de ser pacífico e ao mesmo tempo combatente
de estar mais no passado se mais no presente
de não se ter ninguém e ter em cada homem um parente
de ser tão insensível como quem mais sente
de melhor se curvar se altivamente
de perder a cabeça mas serenamente
de tudo perdoar e todos justiçar dente por dente
de tanto desistir e de ser tão constante
de articular melhor sendo menos fluente
e fazer maior mal quando se está mais inocente
É sob aspecto frágil revelar-se resistente
é para interessar-se ser indiferente
Quando helena recusa é que consente
se tão pouco perdoa é por ser indulgente
baixa os olhos se quer ser insolente
Ninguém é tão inconscientemente consciente
tão inconsequentemente consequente
Se em tantos dons abunda é por ser indigente
e só convence assim por não ser muito convincente
e melhor fundamenta o mais insubsistente
Acabo de inventar um novo advérbio: helenamente
O mar a terra o fumo a pedra simultaneamente

Ruy Belo

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E que tal Lisboamente? Lisboa na mente? Lis mente, como em felizmente?

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Falar de moda é falar de incompreensão, de incapacidade, de solidão; de estar ao lado, estar de fora, estar na margem.

Sem ela que seria de nós?