3.2.15

Diário de Bordos - Marigot, St. Martin, Antilhas Francesas, 03-02-2015

Este blues tem um nome. Chama-se blues da árvore seca. Bare pole blues.


Os problemas administrativos e burocráticos - passe a redundância - mudaram de sede (agora estão no banco) e estou de novo à sec de toile.

E cansado: há um mês que trabalho sem folgas. Hoje tirei uma. Duvido desta expressão: tirar o dia. Tirar? A quem? O dia é meu. Não tirei uma folga. Não tirei nada a ninguém. Ofereci-me uma folga. Ou duas: amanhã também não trabalho.

De qualquer forma estou farto de reparar embarcações de recreio. Se não for para o mar morro.

No mar não tenho de me preocupar com assuntos financeiros, administrativos e burocráticos - os três venenos de um homem livre -.

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R. emprestou-me dinheiro, o Lagoonies e o Sous-marin dão-me crédito, a Little Crew House também, vivo num barco cedido pela empresa de sonho para a qual trabalho em regime livre.

Já estive em piores lençóis.

(Estes são os meus argumentos contra o blues da árvore seca, sem resultados infelizmente).

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Ontem paguei o jantar à D. e ao R. apesar de não ter ainda a certeza sobre o que me fizeram à tarde.

Não há falta que mereça a fome como punição.

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Bare pole blues

Ou tenho vento ou tenho velas.

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Fim de tarde no Lagoonies: a luz escoa-se pelo fim do dia, densa como o desejo e terna como uma carícia numa pele vivida.

Gosto de dias que acabam assim, com uma promessa, uma reverência, um abraço.

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Hoje não trabalhei. Que bom! Precisamos de nos afastar do que gostamos.

Ou do que não gostamos: o importante é a distância, não aquilo de que nos distanciamos.

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Bare pole blues

Se há velas não há vento
e se há vento não há velas.

Falta sempre qualquer coisa
para sair da árvore seca.

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Declaração de amor à vida: todos os dias, todo o dia.

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A senhora da Banque Postale que abriu a minha conta faz qualquer bancário português passar por um modelo de virtude e honestidade.

Começou por me mentir descaradamente sobre o montante mínimo a depositar para a abertura; e continuou mentindo-me sobre o tempo que leva.

Suspeito que quer ser promovida.

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Não ter computador e ser obrigado a escrever num telefone portátil é uma chatice, mas tem pelo menos duas vantagens: escrevo menos inanidades e só as que são inevitáveis.