14.4.15

Diário de Bordos - Belém, Pará, Brasil, 13-04-2015

Vim para a Rodoviária de moto-táxi. Questão de conforto económico; do outro é melhor não falar. Isto dito tenho o maior respeito e admiração pelos motoqueiros brasileiros. Conduzem muito bem, cuidadosamente. Impossível andar sem capacete, por muito que se tente.  Não me incomoda por aí além: de maneira geral os brasileiros são bastante asseados e pôr um capacete sem aquelas ridículas toucas que se têm de usar em Lisboa parece-me legítimo.

A diferença de preço não é grande,  mas amanhã no Ver-o-Peso vai saber-me bem.

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Múltiplas melancolias: demasiadas para um homem só. A pior não é a do computador,  que resolveu avariar de vez. Já andava a ameaçar há uns tempos. Nem sequer a de me ir embora de uma cidade da qual cada dia gosto mais. Ou a da falta de dinheiro, que nunca terá remédio. Nem a molha que apanhei por ter confundido os autocarros e ter tido de atravessar a rua para apanhar o bom que entretanto já tinha saído e estar a chover como chove nestas latitudes. (Estou encharcado. Felizmente a roupa vai secar daqui a Belém).

Nenhuma dessas. A pior melancolia é. ..  Não posso dizer. Melancolia antiga, já aprendi a viver com ela. Está-me no sangue,  e sinto-a como o sinto a ele: às vezes, quando a aflição é muita.

Enfim. Estou no autocarro, molhado como um pinto (piada com várias geografias, o que não implica que seja boa), teso  (isto hoje está mau) com um utensílio de trabalho que  não funciona vá lá saber-se porquê  (talvez tenha trabalhado demasiado. Não sei). Amanhã estarei em Belém,  no hostel do meu amigo Eloízio  (pelo menos durante os momentos livres do dia. A razão pela qual vou a Belém é tentar tirar as peças que ficaram retidas na Alfândega em Novembro do ano passado! )

E depois de amanhã terei o Alexis à minha espera no aeroporto de Panamá. O mais provável é que tenha de lá passar o dia por causa do laptop.

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Mário, o jovem funcionário da livraria Poeme - se diz-me que não gosta de viajar. "A minha família é de Pinheiro e ir até lá já é um sacrifício", explica-me. Algo me soa errado.

Ir a Pinheiro não é uma viagem,  Mário. É uma deslocação e é compreensível que não gostes. Viajar é diferente. Mas só no autocarro resolvo a equação e agora só por mail.

Mário é um jovem adorável, grande conhecedor de Borges, finalista de filosofia apesar de ter apenas vinte anos, educado, sorridente. Deve haver muita senhora por esse Maranhão a sonhar com um genro assim.

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Tento dormir mas é difícil: autocarro cheio, roupa encharcada e a cheirar mal apesar dos três duches do dia.

Pensamentos confusos, pouco claros passeiam-se-me pela mente. Têm a ver com a diferença entre os meus bolsos, sempre vazios e os da minha vida,  sempre cheios. Neste torpor é difícil apanhá -los. Será bolsos ou algibeiras, por exemplo?  E de onde vem a ideia? Por que raio de carga de água não durmo? O autocarro é confortável. É verdade que não tenho sono: dormi bem e muito, apaziguado. Não sei o que é uma algibeira da vida. E estou-me nas tintas  para o que possa muito bem ser.

Porém o torpor é agradável. Deixo o espírito divagar pelos bolsos; os meus e os outros. A roupa está quase seca. Mais uma hora. Talvez o sono apareça por milagre,  vindo de um bolso vazio  mas seco; ou um outro metafísico, cheio das coisas boas que me aconteceram. São tantas que nem as melancolias  múltiplas com as quais comecei a viagem as  conseguem aliviar.

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O autocarro no qual entrei por engano ia para Parnaíba. Há coincidências que não lembram ao diabo.

Felizmente havia alguém com um bilhete para o mesmo lugar do que eu. A mesma "poltrona", se  bem poltrona seja um bocadinho exagerado.

Parámos para comer e o outro também. Não sabia que Belém, que fica para Norte e Parnaíba, para Sul partilhavam tanto trajecto comum. Quase duas horas e meia.

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Duas menos vinte  da manhã. Fizemos pouco mais de metade do percurso. A roupa está seca, com excepção dos sapatos.

Eu também estou seco, mas é uma secura diferente. Mais parecido com estar cansado, ou farto.

Até há uma hora dormi mais ou menos bem.


Agora está difícil:  o ar condicionado, que como de costume está regulado para uma temperatura glacial;  estou vestido e a camisa é incómoda; o assento  ("poltrona" tem mais a ver com o feminino de poltrão do que com o conforto do lugar). Pés gelados,  com ou sem os sapatos. Medo de partir os óculos, únicos que tenho. Todos os pretextos são bons para me manter acordado.

Já fiz este trajecto umas quatro vezes. Não é difícil. Chega-se a Belém e vê -se que o tempo passou depressa, espécie de bom amigo ao contrário.

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Chega -se a Belém uma hora antes de chegar a Belém. É a pior parte da viagem, a mais longa.