22.5.15

Desficções - II

A. sabe que são mentiras. Sabe que sou perfeitamente capaz de viver com alguém uma semana - ou duas - mas que depois preciso de mim, do meu espaço, da minha solidão, do meu tempo, como numa canção ou numa peça de jazz. Sabe que me estou aterradoramente nas tintas para o casamento - isto é, tanto se me dá como se me deu - mas que a ideia de partilhar uma casa a tempo inteiro (tempo? Vida inteira) me assusta mais do que a perspectiva de um ciclone no mar ou uma sessão de dentista. Sabe que bebo quando quero beber, durmo quando quero dormir, leio quando me apetece, que tenho na minha vida quotidiana a regularidade de uma pena num remoinho. Sabe isso tudo e muito mais.

Quer que seja eu a separar-me. É mais cómodo.

Acha que no pote da relação põe mais do que eu.

Quer encostar-me à parede.

(Cont.)