30.5.15

Reedição - O cerco

No Burundi não tinha Diário de Bordos. Não hava sequer blogs, ainda. E se houvesse não teria tempo para escrever: foi dos períodos da minha vida em que mais trabalhei.

Mais tarde escrevi algumas dos episódios que mais me marcaram. Hoje reencontrei este, porque oiço as Suites Inglesas e porque falo com uma senhora bonita e porque me lembro deste dia de uma forma que nunca mais esquecerei.

Aqui fica mais uma reedição, a melhor arma da preguiça, e da memória [ligeiramente editado, como sempre]:

O Cerco

A felicidade, suspeito, é como as bruxas: não sabemos bem o que é, mas lá que ela existe, existe. Já fui feliz, muitas vezes – mas muitas menos quantas fui infeliz, e durante menos tempo, suponho –.

No Burundi vislumbrei a felicidade, ou pelo menos uma das suas formas: era aquilo que me perseguia quando eu, desrespeitando um pouco as normas de segurança seguia a cem à hora no meu 4 x 4, as Suites Inglesas do Bach e o ar condicionado no máximo. A pista era larga, bastante larga, e aquela zona estava mais ou menos deserta. Estava a tratar de uma distribuição no sul do país e tinha, como de costume, deixado o meu condutor em casa: não há pior condutor de 4 x 4 que um chauffeur africano; exceptuando, claro, os etíopes. Mas esses são uma excepção, não a norma. E a verdade é que não gostava de andar pelo mato com um Tutsi que dizia, quando eu lhe perguntava se trazia os documentos: "o meu passaporte é o meu nariz!".

A ideia era fechar um programa que se arrastava havia anos para nos podermos concentrar no Norte, onde estavam as verdadeiras urgências – e onde não estava a felicidade: a primeira vez que vi um campo de refugiados chorei; e ainda hoje, anos passados, não consigo deixar de me emocionar quando penso naquelas filas e filas ininterruptas de barracas de dez metros quadrados, cobertas com os plásticos de cujo envio para os campos eu era responsável –. Quando vemos uma família africana, pobre, esfarrapada, num campo de refugiados não podemos imaginar como poderia ela estar pior ainda: face àquela desolação que subia pelo ar com o fumo das inúmeras fogueiras, a ideia que aquela gente tinha fugido de um lugar, a casa deles, onde seria ainda mais miserável não me abandonava. Até onde pode ir a miséria; ou a felicidade?

Como habitualmente, o programa no sul do Burundi não estava a correr tão mal quanto poderia ter corrido nem tão bem quanto planeado: o projecto inicial era fazer uma distribuição “just in time”, fazendo os camiões sair de Buja com a assistência necessária para cada dia. As listas de beneficiários já tinham sido actualizadas: ao todo, vinte e seis mil pessoas, distribuídas por cerca de uma dezena de pontos de distribuição. Eu tinha a assistir-me uma rapariga suíça, uma pessoa extraordinária, dos seus cinquenta anos, bonita e risonha. E corajosa, também.

O Burundi é um país lindo. O norte é montanhoso e o sul é constituído por um planalto que domina a interminável savana e a parte sul do Rift. Era nesse planalto que a distribuição ia ter lugar. Por vezes parava num ponto do qual se via a falha e a savana amarela porque era a época seca; no carro, o Gould mastigava o Bach como pastilha elástica e fazia balões com ele, e a vista seguia a falha até ao fim do mundo, até ao vazio, e eu pensava que era por ali que tinha nascido a humanidade. E perguntava-me porque está África condenada? Porque é que amar África tem de ser como amar uma mulher bonita e infiel, que traz mais dor do que prazer? E porque é África tão bonita, tão infinitamente bonita?

Naquele dia tínhamos combinado com a tropa estar no ponto de distribuição às oito da manhã. Era um dos pontos com mais beneficiários, cerca de três ou quatro mil. O material tinha sido deixado de véspera numa cabana, da qual a Heidi (era o nome dela), e eu o tínhamos tirado quando chegáramos de manhã cedo. As pessoas faziam um grande círculo à nossa volta, enquanto nós arrumávamos as coisas: cobertores, jerrycans, baldes, sementes, etc. A tropa tardava a chegar, mas nós não estávamos assustados: o exército burundês é um dos melhores que conheço em África; se bem o diâmetro do círculo feito pelas pessoas à nossa volta fosse diminuindo aos poucos e poucos, calculei que havia tempo de sobra para os soldados chegarem. Começar a distribuição sem eles seria, de qualquer maneira, uma forma particularmente medonha de suicídio: um jerrycan vale uma fortuna, naqueles países, e ali estavam oitocentos ou novecentos, mais os cobertores, baldes, canecas, sementes, tudo parte de um “goodbye package”, guardado por quatro pessoas.

Já eram quase nove horas. O círculo à nossa volta estava perceptivelmente mais pequeno, e da tropa nem sombra. Disse à Heidi que ela tinha que ir buscar os soldados.
- Vai tu – respondeu ela, - eu não sei onde é o quartel.
- Isso está fora de questão, não te vou deixar aqui sozinha.
- É muito mais lógico ires tu: não só sabes onde é o quartel mas também guias mais depressa do que eu. Despacha-te.

Não valia a pena continuar a discussão. Eu já trabalhava com ela havia alguns dias e sabia que era teimosa; além de que os argumentos eram válidos: uma mulher bonita e loira perdida por aquelas paragens corre alguns riscos. Fui para o carro, tentando aparentar toda a calma deste mundo. O dia estava lindo: o azul do céu combinava-se perfeitamente com o amarelo da savana e o pouco verde que restava em alguma árvores. A mole de gente era cada vez mais compacta. Não havia muito barulho: pouco mais do que um murmúrio, que se perdia no cantar dos pássaros; o que em África é inquietante, porque nunca há silêncio, nunca. Estimei que, àquele ritmo, teria uma hora – se eles não acelerassem agora que o único branco se tinha ido embora e a tropa ainda não chegara.

Não liguei o ar condicionado: queria toda a potência que o Land Cruiser tivesse. Mas pus a cassette do Gould, de resto a única que tinha. A música barroca adapta-se especialmente bem aos caminhos de terra, às picadas. Ainda ontem o verifiquei, na serra de Sintra, com o meu carro: descobri um sítio que, inexoravelmente, me trouxe o sul do Burundi à memória – se bem que a vista fosse sobre Cascais e o mar, não sobre uma falha e a savana. Mas as estradas estavam igualmente cheias de buracos, e a paisagem era linda, e a música de Salieri moldava-se aos altos e baixos do carro. E, como no Burundi, a felicidade perseguia-me, vinha atrás de mim, escondida na nuvem de pó, constituída por uma mistura de beleza, solidão, harmonia.

Talvez o romântico seja melhor para o alcatrão, não sei. Naquele dia acelerei como nunca tinha acelerado; a picada era “chapa ondulada” e a música mal se ouvia. O pó vermelho dava-me a impressão de avançar à frente de um incêndio. E não conseguia deixar de pensar na Heidi e no círculo de beneficiários que se apertava em redor dela. O carro estava coberto de pó e cheio dele: aquela poeira vermelha penetra em tudo quanto é frincha, e o Toyota estava encarnado por fora e por dentro.

E eu cada vez mais ansioso: nunca conseguiria fazer o trajecto de ida e volta numa hora. Poucos meses antes tinha ido ao enterro de um colega, dezanove anos, assassinado porque se pusera à frente de uns atacantes para cobrir uma personalidade (provavelmente um presidente de câmara) que estava em casa dele. Pensara que não o matariam, a ele, funcionário da ONU. Mataram-no com sete balas, e a vítima designada nem uma beliscadura teve. O meu colega morreu de hemorragia: ficou horas a esvair-se em sangue, a saber que ia morrer. Tinha dezanove anos. Será possível, aos dezanove anos, saber-se que se vai morrer? No dia seguinte fui ao aeroporto receber o corpo dele, embrulhado em sacos de plástico, porque onde eles estavam não havia mais nada para o embrulhar. Uma simples transfusão tê-lo-ia salvo, nenhum orgão vital tinha sido atingido. Ia conduzindo, via o círculo a reduzir-se, e imaginava as perguntas do inquérito:
- Porque a deixou lá? Porque não foi ela buscar a tropa? Porque foi um cobarde? Porque fugiu? Porque a deixou lá? Porque fugiu? Porque fugiu? Porque foi um cobarde? Como é, ser cobarde?

Cheguei, finalmente, ao quartel. O capitão explicou-me que não tinham ido porque no quartel só havia um carro, e fora cedido para um enterro “de uma pessoa que morrera e já não tinha o carro dela”. Estavam à minha espera, mas não tinham maneira de contactar comigo. Enchi o Toyota de soldados, tantos quantos cabiam, eles e as kalashes e as granadas e as facas de combate, compridas como espadas pequenas. O Land Cruiser era grande, mas os Tutsis também: o carro parecia rebentar. No regresso não pus música, porque sabia que eles não gostariam, nem ar condicionado, porque ainda precisava de toda a potência do motor. Tentava falar com o capitão, e explicar-lhe a situação, e não pensar no cheiro de mais de uma dúzia de soldados dentro de um carro fechado e não pensar nas granadas e nas kalashnikovs e na Heidi, e nos colegas locais, e na comissão de inquérito e de como me sentiria se lhe tivesse acontecido qualquer coisa, como sobreviveria.

Quando chegámos, o círculo à volta dos meus colegas tinha pouco mais de vinte metros de diâmetro. Os soldados tiveram dificuldade em atravessar aquela massa compacta de gente apesar das coronhadas que distribuíam generosa e violenta, indiscriminadamente. A Heidi sorriu quando me viu. Ainda à coronhada, afastámos as pessoas para noventa ou cem metros e começámos a distribuição.

Continuo sem saber o que é a felicidade, mas sei que a sorte é parte integrante, essencial dela. E ser feliz é quase tão difícil como ganhar à lotaria. O melhor é não desperdiçar esses momentos raros, únicos, valiosos e aceitá-los como o que são: presentes de um deus perverso, capaz de se esconder num país devastado pela guerra, numa picada de terra vermelha, no horror.


Cascais, 05.06.2002